O som de um ambiente silencioso, interrompido apenas pelo zumbido constante de luzes fluorescentes, é a trilha sonora do pesadelo moderno. Quando o designer de produção Danny Vermette começou a traduzir o universo de Backrooms para as telas, ele não estava apenas construindo um set de filmagem; ele estava materializando uma angústia compartilhada por uma geração que cresceu navegando em corredores infinitos e salas de espera sem propósito. O filme, produzido pela A24 sob a direção de Kane Parsons, eleva a lenda urbana dos 'espaços liminares' a uma escala física impressionante, onde a geometria falha e o design se torna o principal antagonista da trama.
A materialização do vazio digital
Para Vermette, o desafio central foi converter o que antes existia apenas em simulações digitais do software Blender para a realidade tátil de quatro palcos sonoros. A transição não foi puramente estética, mas estrutural. O diretor Kane Parsons, que iniciou o projeto aos 16 anos, exigiu que a transposição para o longa-metragem evitasse a dependência exclusiva de efeitos visuais. O resultado foi a construção de 30 mil pés quadrados de labirintos físicos, onde o desconforto é gerado por inclinações sutis e portas posicionadas em locais onde a lógica arquitetônica dita que não deveriam existir. A precisão técnica necessária para replicar a iluminação e a textura dos carpetes, que se tornaram o ícone visual dessa creepypasta, exigiu testes exaustivos de materiais para evitar que as tramas dos tecidos criassem interferências visuais indesejadas nas lentes das câmeras.
O desconforto como ferramenta narrativa
O protagonista de Backrooms, Clark, vivido por Chiwetel Ejiofor, é um arquiteto frustrado que transita entre a decadência de uma loja de móveis e a desolação das salas infinitas. Essa escolha profissional não é fortuita; ela serve como uma ponte para o público especializado. Vermette admite que arquitetos sentirão um arrepio particular ao observar a composição dos ambientes. A estética dos anos 90, marcada por um design de volume sem alma, é o terreno onde o horror floresce. A paleta de cores, deliberadamente opaca e sem vida, foi adotada para reforçar a sensação de impotência do personagem diante de um ambiente que parece se expandir à medida que ele tenta compreendê-lo.
A herança do design descuidado
O fenômeno dos espaços liminares, segundo a leitura de Vermette, é um subproduto do que ele classifica como design preguiçoso de décadas passadas. A transição da arquitetura funcional do pós-guerra para o volume desenfreado dos anos 80 e 90 criou vastas áreas de transição que carecem de humanidade. O filme explora essa falha estrutural, transformando corredores de centros comerciais e escritórios bege em cenários de isolamento absoluto. Ao trazer elementos técnicos reais para o set, como desenhos arquitetônicos autênticos de seu próprio sogro, Vermette confere uma camada de autenticidade que torna a distorção do espaço ainda mais desconcertante para o olho treinado.
O eco das paredes infinitas
O que permanece após a experiência de Backrooms não é apenas a narrativa de terror, mas a dúvida sobre o que constitui um espaço habitável. A capacidade de Vermette e Parsons de transformar o mundano em surreal sugere que o medo, muitas vezes, reside na falta de intenção do ambiente que nos cerca. Enquanto o cinema continua a explorar as fronteiras entre o digital e o físico, o design de produção se consolida como o verdadeiro arquiteto do medo contemporâneo. Resta saber se, após o filme, os corredores de prédios comerciais serão vistos da mesma forma por aqueles que neles habitam.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





