As sombras da guerra pairam sobre um tesouro cultural insubstituível em Kyiv: o arquivo de S. An-sky, nome literário de Shloyme-Zanvl Rapoport. Este acervo, que engloba um questionário de 2.087 perguntas detalhadas sobre a vida judaica no início do século XX, está novamente sob ameaça em meio ao conflito na Ucrânia. A história de An-sky e sua obra são um testemunho da resiliência e da fragilidade da memória cultural, especialmente em tempos de destruição.

An-sky, autor de "The Dybbuk", uma obra-prima do teatro iídiche, dedicou sua vida a um esforço obsessivo para documentar a civilização judaica que ele via desaparecer. Seu Programa Etnográfico Judaico, iniciado em 1912, visava capturar "todos os aspectos" da vida judaica, desde rituais de nascimento e morte até costumes cotidianos e crenças populares. O questionário de 2.087 perguntas, publicado em 1914 como "Der mentsh" ("A Pessoa"), é apenas uma parte desse ambicioso projeto. Ele revela um conhecimento íntimo e granular das práticas e pensamentos da comunidade, com questões que vão desde crenças sobre gravidez até costumes de casamento e rituais de luto.

A expedição de An-sky, que durou de 1912 até o início da Primeira Guerra Mundial, resultou na coleta de uma vasta quantidade de material: 1.800 contos populares, 1.500 canções, 1.000 melodias, 100 documentos históricos, 500 manuscritos, 700 objetos sagrados e 500 cilindros de cera com gravações de áudio. An-sky não via essa coleção como uma mera cápsula do tempo, mas como matéria-prima para a construção de uma identidade nacional judaica secular. No entanto, as convulsões históricas subsequentes — as guerras mundiais, o Holocausto e as perseguições soviéticas — transformaram a coleção em fragmentos de uma civilização extinta.

A Fragilidade do Legado em Tempos de Guerra

O material coletado por An-sky, após ter sido redescoberto no pós-Guerra Fria em instituições em São Petersburgo e na Biblioteca Nacional da Ucrânia, encontra-se agora novamente em perigo. Com a "invasão em larga escala" da Ucrânia, como os ucranianos a chamam, e os bombardeios em Kyiv, muitos desses materiais estão ameaçados. O YIVO Institute for Jewish Research, sediado em Nova York, firmou um acordo com o governo ucraniano para digitalizar os papéis de An-sky, em uma tentativa de salvaguardar o legado.

A viagem à Ucrânia para oficializar essa digitalização evoca um sentimento sombrio de continuidade. An-sky lutou para salvar o que havia de estranho e belo em seu povo; os ucranianos, por sua vez, lutam pela preservação de sua autonomia e identidade cultural nacional. O escritor, em carta a seu benfeitor, expressou nervosismo diante do "grande desconhecido", uma apreensão que ressoa com a situação atual. A luta ucraniana para preservar sua cultura frente à agressão russa, que nega a própria existência do país, espelha o esforço de An-sky de documentar um povo à beira do desaparecimento.

O Acervo em Condições Precárias

Ao chegar à Biblioteca Nacional Vernadsky, a expectativa de encontrar o arquivo facilmente acessível deu lugar à realidade de um "sótão fortificado e esfarrapado" do departamento de Judaica. Tetyana Batanova, chefe do departamento, demonstrava uma mistura de proteção e resignação. O material de An-sky, assim como o restante da coleção de Judaica, está abrigado em um edifício antigo, com problemas estruturais evidentes. Manchas de água no teto, prateleiras que ameaçam tombar e jornais centenários em decomposição são testemunhos da precariedade. A falta de controle climático agrava o problema, com temperaturas que caem abaixo de zero no inverno e umidade excessiva no verão, inimigas do papel amarelado.

As "desventuras" do acervo são longas e trágicas. Fundado em 1929 como Instituto de Cultura Judaica Proletária, o acervo foi desmantelado durante a Grande Purga de Stalin em 1936, com partes confiscadas pela NKVD ou queimadas. Os nazistas saquearam o que restou após a guerra, e a campanha anti-cosmopolita de Stalin em 1949 levou à ocultação da maior parte da coleção nas catacumbas de um monastério, onde permaneceu até 1968. Somente nos anos 90, após um período em um porão privado, o material foi transferido de volta para a Vernadsky. A guerra atual adiciona uma nova camada de perigo, com mísseis atingindo o entorno da biblioteca, forçando o uso de lonas plásticas para proteger as janelas.

Mecanismos de Salvaguarda e Resistência

Diante desse cenário, a iniciativa de digitalização do YIVO com o governo ucraniano surge como um raio de esperança. Embora haja tensões sobre a propriedade e a preservação desse patrimônio — Batanova o vê como parte integrante da herança ucraniana, enquanto Brent o considera crucial para a preservação da herança judaica —, a colaboração é vista como essencial. O YIVO se comprometeu a financiar parte desse esforço, reconhecendo a necessidade urgente de ajuda para a biblioteca.

A própria natureza do trabalho de An-sky era uma forma de resistência cultural. Ele buscava ativamente histórias, canções, objetos e até mesmo anedotas bizarras, como a de um homem que teria vendido o próprio dedo decepado para ser exibido em um museu etnográfico. Sua habilidade em ganhar a confiança das pessoas, muitas vezes através de práticas religiosas compartilhadas e demonstrações do fonógrafo, permitiu-lhe registrar a alma de um povo. As gravações em cilindros de cera, que agora são tocadas com reverência, capturam vozes, risos e canções que ecoam através do tempo, como a de Shloyme Kulish, um jovem lojista de Ludmir, cantando uma melodia que soa "meio a um soluço".

Implicações para a Identidade e o Futuro

As implicações da preservação do arquivo de An-sky transcendem a mera salvaguarda de documentos históricos. Para a Ucrânia, que luta para afirmar sua identidade cultural única contra a negação russa, o acervo representa um elo com um passado multifacetado, que inclui a rica história judaica. A curadora Oksana Semenik, ao trabalhar na "descolonização" da arte ucraniana, encontra paralelos diretos com o trabalho de An-sky. A ideia de que um povo inteiro possa desaparecer, uma preocupação que marcou An-sky, é uma realidade que os ucranianos enfrentam hoje.

A presença de figuras como o presidente Volodymyr Zelensky, de ascendência judaica, sinaliza um reconhecimento da pluralidade na identidade nacional ucraniana. No entanto, a história também é complexa, com períodos de conflito e perseguição, como as massacres de Bohdan Khmelnytsky, que afetaram profundamente as comunidades judaicas. A coexistência de narrativas históricas, como a de Khmelnytsky — herói nacional ucraniano, mas figura traumática para os judeus —, ilustra a complexidade da memória cultural.

Perguntas em Aberto e o Caminho Adiante

O que permanece incerto é o destino final de grande parte desse acervo. Apesar dos esforços de digitalização, a fragilidade física dos materiais e a contínua ameaça da guerra deixam um rastro de apreensão. A própria natureza do trabalho de An-sky, que coletou fragmentos de um mundo em desintegração, reflete a condição atual. A pergunta que paira é se esses esforços de salvaguarda serão suficientes para proteger um legado tão precioso contra as forças da destruição e do esquecimento.

A digitalização, embora crucial, não substitui a integridade física dos originais nem a riqueza do contexto em que foram criados. A história do arquivo de An-sky é um lembrete constante de que a memória cultural é um bem precioso e vulnerável, que exige vigilância e dedicação contínuas. O futuro desse acervo dependerá da capacidade de colaboração internacional e do compromisso contínuo com a preservação da história, mesmo em meio ao caos da guerra.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas