Vídeos recém-divulgados pelo arquiteto Daniel Oakley oferecem uma visão rara dos primeiros passos do escritório Zaha Hadid Architects no ambiente digital. As imagens, que documentam modelos 3D criados no final da década de 1980, revelam o momento exato em que a prática, mundialmente reconhecida por suas formas fluidas e paramétricas, começou a explorar o potencial da computação gráfica para traduzir visões teóricas em projetos arquitetônicos.

Segundo reportagem da Dezeen, os registros foram extraídos de disquetes que Oakley guardou por décadas e recentemente convertidos para formatos acessíveis. O material detalha o trabalho desenvolvido no chamado Studio 9, o núcleo de experimentação tecnológica da firma, onde o uso de ferramentas digitais ainda era visto com ceticismo pela própria Zaha Hadid e pelo sócio Patrik Schumacher, que preferiam a representação física e o desenho à mão.

A resistência do desenho manual

No final dos anos 80, o escritório de Zaha Hadid operava sob uma lógica estritamente analógica. Oakley, contratado em 1989 como especialista em aplicações computacionais, relata que a transição não foi imediata. A equipe, composta por talentos que ainda confiavam primariamente na pintura e na maquete física, via a tecnologia como um elemento periférico, e não como a espinha dorsal de seu processo criativo.

O ponto de virada ocorreu quando Oakley venceu uma competição da Apple UK e Paracomp, sendo premiado com um Macintosh IIci. Com 5MB de RAM e um disco rígido de 40MB, essa máquina tornou-se o primeiro computador de design do estúdio. A ferramenta permitiu a exploração de projetos icônicos da época, como o Tomigaya Building e o Zollhof Media Park, servindo como a prova de conceito necessária para convencer o alto escalão da viabilidade da modelagem 3D.

O mecanismo da transição tecnológica

O processo de digitalização do escritório não foi apenas uma mudança de ferramenta, mas uma mudança de paradigma estético. Oakley, que trouxe experiência prévia com computação gráfica da Rhode Island School of Design e da Brown University, atuou como um mediador entre a teoria arquitetônica de Hadid e as limitações técnicas dos sistemas da época. O uso de softwares de modelagem permitiu que o estúdio testasse geometrias complexas que, até então, eram difíceis de representar com precisão em papel.

Em 1998, a aposta na tecnologia foi consolidada quando Oakley, já baseado em São Francisco, articulou uma parceria com a Autodesk e a Intergraph. A chegada de cinco estações de trabalho de alto desempenho elevou a capacidade de visualização do estúdio a um patamar inédito, estabelecendo as bases para a linguagem arquitetônica que se tornaria o padrão do escritório ao longo dos anos 90 e 2000.

Impacto no ecossistema arquitetônico

As implicações desse período de experimentação são profundas para a arquitetura moderna. O estilo paramétrico, hoje uma marca registrada da firma, depende inteiramente da capacidade de processar algoritmos complexos para gerar formas orgânicas. O trabalho de Oakley no Studio 9 funcionou como um laboratório que antecipou a onipresença do design computacional, influenciando não apenas a trajetória de Hadid, mas a prática arquitetônica global.

Para reguladores e críticos, a evolução de Hadid demonstra como a tecnologia pode ser usada para expandir os limites do possível. Enquanto o mercado brasileiro de arquitetura hoje adota ferramentas de BIM e IA generativa, o caso de Zaha Hadid serve como um lembrete de que a tecnologia, por si só, é insuficiente sem uma visão teórica forte para guiá-la.

Perspectivas e o legado digital

O que permanece aberto é a questão de como a transição para o digital alterou permanentemente a relação entre o arquiteto e a forma construída. A transição de Hadid do papel para o pixel não foi apenas uma troca de mídia, mas uma expansão da própria ontologia do projeto. Observar essas imagens primitivas levanta dúvidas sobre o que se perdeu e o que se ganhou na automação do design.

À medida que novas ferramentas de inteligência artificial começam a automatizar ainda mais o processo, a história de Oakley e Hadid torna-se um documento histórico sobre a ética da inovação. O futuro da profissão dependerá de como os arquitetos atuais equilibrarão a facilidade da geração automatizada com a intenção artística que, como provado no Studio 9, exige décadas de persistência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen