A nova corrida para a Lua, liderada pelo programa Artemis da NASA, pode inadvertidamente apagar pistas cruciais sobre a origem da vida na Terra. Um novo estudo levanta um alerta contraintuitivo: os próprios foguetes que nos levarão de volta à superfície lunar podem contaminar de forma irreversível um dos ambientes mais valiosos para a ciência.

O problema reside no gás metano expelido pelos módulos de pouso. Segundo a pesquisa, essa contaminação pode destruir moléculas orgânicas preservadas há bilhões de anos no gelo dos polos lunares. É um paradoxo que coloca em xeque a própria lógica da exploração: para chegar ao tesouro, arriscamos destruí-lo no processo.

O cofre biológico da Lua

Crateras nos polos lunares, que nunca recebem luz solar direta, funcionam como um freezer cósmico. Nelas, gelo ancestral guarda material de asteroides e cometas que bombardearam o sistema Terra-Lua há éons. Acredita-se que, entre esse material, estejam "moléculas orgânicas prebióticas" — os tijolos que podem ter dado origem à vida.

Enquanto a atividade geológica e biológica da Terra apagou esses registros, a Lua, geologicamente inerte, os manteve intactos. "Sabemos que temos moléculas orgânicas no sistema solar", afirmou Silvio Sinibaldi, autor sênior do estudo e oficial de proteção planetária da Agência Espacial Europeia. "Mas como elas vieram a desempenhar funções específicas [...] é uma lacuna que precisamos preencher". O gelo lunar é, potencialmente, a chave para preencher essa lacuna.

Uma contaminação irreversível

As simulações do estudo são diretas. Sem uma atmosfera para contê-los, os gases de exaustão de um único pouso no polo sul se espalhariam por toda a superfície lunar em questão de meses. O metano ficaria preso justamente nas mesmas áreas geladas e escuras que abrigam as moléculas de interesse científico, contaminando permanentemente essa amostra finita.

Para a equipe de pesquisa, a questão transcende a ciência e entra no campo da ética ambiental. "Temos leis que regulam a contaminação de ambientes terrestres como a Antártida e parques nacionais", argumenta a física Francisca Paiva, autora principal do trabalho. "Acho que a Lua é um ambiente tão valioso quanto esses". A discussão, portanto, não é se devemos voltar à Lua, mas como.

O debate que se abre não é trivial. A empolgação com a construção de bases lunares e a exploração de recursos precisa ser ponderada com o risco de uma perda científica irreparável. O retorno à Lua força uma reflexão sobre qual legado a humanidade pretende deixar em outros mundos: o da descoberta ou o da contaminação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com