O cineasta Arthur Harari, reconhecido recentemente pelo rigor narrativo de Anatomia de uma Queda, enfrenta agora o desafio de sustentar uma premissa ambiciosa em seu novo longa, The Unknown. O filme, que explora a temática da troca de corpos, acompanha David Zimmerman, um fotógrafo parisiense em crise que, após um encontro casual em uma festa, desperta habitando o corpo de uma mulher, interpretada por Lea Seydoux. Segundo crítica publicada na Little White Lies, o projeto sofre com um roteiro que falha em converter seu conceito central em uma experiência cinematográfica envolvente.

A falha na construção dramática

Apesar da inspiração em uma graphic novel coescrita com seu irmão, Lucas Harari, o filme apresenta uma narrativa excessivamente esparsa. O protagonista David, interpretado por Niels Schneider, permanece praticamente silencioso durante os primeiros 40 minutos de uma duração total de 139 minutos. Essa opção estilística, longe de gerar um mistério magnético, acaba por distanciar o espectador da angústia do personagem, tornando o ritmo da obra penoso e pouco recompensador diante da falta de respostas claras sobre a transformação ocorrida.

Entre a alegoria e a opacidade

O longa flerta com temas identitários, permitindo interpretações que conectam a trama a uma alegoria sobre a disforia de gênero e a busca por confirmação. Contudo, a execução é frequentemente descrita como opaca e frágil. Enquanto o filme tenta utilizar a fotografia de David — um projeto sobre mudanças inevitáveis — como espelho temático, a integração dessa metáfora parece forçada. A maior parte do tempo, o protagonista limita-se a buscas em plataformas como Google e Reddit, esvaziando o potencial dramático da premissa.

Limitações técnicas e narrativas

A trilha sonora, marcada por um motivo recorrente de piano, é apontada como um elemento de uso excessivo, que tenta sublinhar um medo que a mise-en-scène não consegue transmitir organicamente. A caracterização dos personagens, elemento central para que o espectador se importe com as ramificações mentais da troca, mostra-se insuficiente. O filme parece mais preocupado em manter o mistério do "como" e do "porquê" do que em explorar as consequências tangíveis para os envolvidos, resultando em um vazio narrativo que o elenco, apesar do talento, não consegue preencher.

O desafio da expectativa

O contraste com o trabalho anterior de Harari é inevitável. Enquanto Anatomia de uma Queda brilhava por seus diálogos cortantes e uma trama jurídica intrincada, The Unknown opta por um caminho de introspecção que acaba por se tornar inócuo. A questão que permanece é se a desconstrução da identidade, tema central da obra, teria encontrado melhor abrigo em uma estrutura menos dependente de um mistério que, ao final, pouco entrega ao público. O futuro da obra dependerá de como o espectador reagirá a essa proposta de cinema contemplativo, mas pouco substancial.

A recepção crítica sugere que, mesmo com nomes de peso no elenco e na direção, a transição entre o conceito e a tela exige um equilíbrio que, neste caso, permaneceu fora de alcance. O cinema de gênero, quando busca a profundidade existencial, precisa de ganchos narrativos que sustentem a jornada do personagem, algo que, segundo a análise, faltou a esta produção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies