A cartografia, historicamente apresentada como uma ciência objetiva e neutra, sempre serviu como um instrumento de poder. No Royal Museum for Central Africa, em Bruxelas, mapas coloniais de 1910 não apenas delimitavam fronteiras, mas diagramavam a exploração de recursos e a precificação de vidas humanas. Essa violência embutida na medição do território é o ponto de partida para uma nova geração de artistas que, em exposições recentes em Nova York, busca ressignificar o mapa. Segundo reportagem da Hyperallergic, as obras de Claudio Perna, Sandy Rodriguez e Firelei Báez transformam a cartografia de uma ferramenta de classificação em um campo de investigação sobre memória, movimento e resistência.

O trabalho desses artistas sugere que os mapas, longe de serem retratos fiéis da realidade, são construções ideológicas que orientam a percepção do observador. Ao intervir fisicamente nesses documentos, eles expõem as escolhas e as exclusões que sustentam a visão de um mundo ordenado e dominável. Esta prática, que pode ser entendida como uma forma de contramapeamento, não apenas questiona a autoridade colonial, mas propõe novas maneiras de habitar o território através da arte.

O mapa como documento instável

Claudio Perna, artista conceitual venezuelano, tratou a cartografia como um documento inerentemente instável. Formado em geografia e professor na Universidad Central de Venezuela, Perna utilizou sua formação acadêmica para subverter a lógica disciplinar do território. Entre o final dos anos 1960 e o início da década de 1990, suas obras exploraram a fricção entre a geografia oficial e a subjetividade, incorporando fotografias, xerox e colagens que sobrepunham camadas de significado ao desenho original dos mapas.

Em peças como “Les Plus Sauvages — Colombia”, Perna sobrepõe referências artísticas e logos corporativos a mapas de recursos hidráulicos, colapsando a identidade nacional sob o peso da influência econômica dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Essa abordagem revela a fragilidade das fronteiras diante de forças externas e a experiência de desterritorialização, um tema que ressoa profundamente com a atual crise migratória venezuelana, onde milhões vivem fora do país que o artista mapeou com tanta insistência.

A cartografia como registro de memória

Enquanto Perna focava na instabilidade, Sandy Rodriguez utiliza o mapa para registrar a continuidade histórica de resistências e violências. Em sua exposição “Tierra Insurgente”, na Hispanic Society Museum & Library, ela cria códices contemporâneos que conectam eventos distantes no tempo, como rebeliões coloniais do século XVI e protestos modernos contra a violência policial nos Estados Unidos. A artista utiliza pigmentos naturais e papel amate, recuperando sistemas de conhecimento indígenas que foram historicamente suprimidos pela taxonomia colonial.

O uso de materiais orgânicos não é apenas estético, mas político. Ao plotar locais de repressão policial com ocre vermelho e cochonilha, Rodriguez transforma o mapa em um registro vivo e visceral. A obra funciona como uma contramapeamento, onde a vigilância estatal é revertida em um arquivo de memória coletiva, desafiando a tentativa do poder de apagar os vestígios de resistência através da normalização da crise.

A desobediência cartográfica de Báez

Firelei Báez adota uma estratégia de sobreposição, pintando sobre mapas do século XIX para revelar o que jaz escondido sob as linhas coloniais. Em sua exposição na Hauser & Wirth, a artista submerge dados cartográficos e medições climáticas sob figuras quiméricas e folclore caribenho. Báez argumenta que os documentos originais são, em si, projeções de desejo, e sua intervenção serve para desestabilizar a autoridade desses registros históricos, permitindo que corpos e plantas ocupem o espaço que antes era definido apenas por fronteiras rígidas.

Essa desobediência cartográfica é um ato de recuperação da memória diaspórica. Ao saturar os mapas com cores e formas que excedem a estrutura geométrica, a artista propõe uma relação com a terra que não é ditada por sistemas de exploração herdados. A obra de Báez, assim como a de Perna e Rodriguez, convida o espectador a ver o mapa não como um destino final, mas como um terreno que pode ser constantemente reinterpretado.

Perspectivas e incertezas

A eficácia do contramapeamento reside em sua capacidade de expor o que o mapa oficial tenta ocultar ou silenciar. No entanto, permanece a questão sobre como essas intervenções artísticas podem influenciar o discurso público além das galerias de arte. A tensão entre a permanência dos arquivos coloniais e a efemeridade da arte contemporânea sugere que a luta pela narrativa do território é um processo contínuo e inconcluso.

O futuro dessas práticas dependerá da capacidade de manter o engajamento com sistemas de conhecimento alternativos, sem que estes sejam novamente absorvidos ou neutralizados pelas instituições que pretendem criticar. A observação dessas obras convida a uma reflexão sobre a nossa própria ocupação do espaço e sobre quais histórias estamos dispostos a ler quando olhamos para a cartografia que nos cerca.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic