— O que deveria ser mais uma edição consagradora da Bienal de Veneza virou um teste de estresse institucional. Segundo a ARTnews, 52 artistas da mostra central decidiram não participar dos recém-criados ‘Leões do Visitante’ — prêmios definidos por voto do público que a organização propôs após a renúncia do júri. A recusa foi formalizada em carta aberta publicada na e-flux e assinada por nomes como Alfredo Jaar e Walid Raad.
Para os artistas, deslocar a decisão de um corpo de jurados para um plebiscito entre visitantes não resolve o problema de fundo: a pressão política que atravessa a edição e coloca a própria Bienal sob escrutínio. A renúncia do júri ocorreu após semanas de tensão envolvendo a avaliação e a participação de pavilhões nacionais — em especial os de Israel e da Rússia —, contexto relatado por veículos especializados. Diante do vazio deixado pelo júri, a direção da Bienal apresentou o mecanismo de voto popular como alternativa temporária.
A manobra, embora soe “democrática”, é vista por parte dos artistas como um enfraquecimento do crivo curatorial que historicamente sustentou o prestígio dos prêmios em Veneza. Ao transformar a premiação em uma disputa de preferências imediatas, argumentam os signatários, corre-se o risco de diluir a complexidade crítica que a arte contemporânea demanda, sobretudo em um momento em que a geopolítica invade as salas de exposição.
A crise atual também reativa um debate antigo: existe neutralidade possível em megaexposições estruturadas por pavilhões de Estados-nação? Mesmo sem um veredito único, o histórico recente mostra que decisões em Veneza reverberam para além da Laguna. Em 2022, por exemplo, o pavilhão russo não abriu após a invasão da Ucrânia, e a Bienal se manifestou contra a guerra — um lembrete de que escolhas institucionais carregam peso político, ainda que apresentadas como administrativas.
Ao recusarem os ‘Leões do Visitante’, os artistas sinalizam uma mudança de eixo de poder: o valor simbólico do prêmio não reside apenas na marca Bienal, mas na adesão da própria comunidade artística às regras do jogo. Sem esse pacto, prêmios podem continuar existindo no papel, mas perdem lastro no campo cultural.
Para outras instituições e ecossistemas — inclusive o brasileiro, que tradicionalmente vê em Veneza uma vitrine —, o episódio funciona como alerta. Governança, transparência de critérios e proteção da integridade curatorial tornaram-se fatores de risco reputacional. Mecanismos de participação do público podem enriquecer a experiência, mas, isoladamente, não substituem a responsabilidade crítica de um júri quando a disputa é por legitimidade.
O desfecho desta edição dirá menos sobre quem “vence” e mais sobre como Veneza pretende arbitrar conflitos daqui para frente. Se a solução for apenas cosmética, a Bienal arrisca trocar prestígio por conveniência. Se encarar a crise de frente, pode sair dela com um modelo de governança mais claro — e, por isso mesmo, mais resistente às pressões do presente.
Com reportagem de ARTnews (https://www.artnews.com/art-news/news/venice-biennale-artists-decline-consideration-visitor-lions-1234784841/). —
Source · ARTnews





