Em um bangalô no bairro de Greenwood, Seattle, uma cena inusitada marcou o final de fevereiro. Enquanto a cidade lida com a constante pressão da gentrificação e a escassez de moradias, o projeto Once Removed, idealizado pelas galeristas Zoë Hensley e Sammy Skidmore, ocupou um imóvel prestes a ser demolido para uma última intervenção artística. O espaço, que deveria ser apenas um canteiro de obras ou um terreno vazio, tornou-se palco de instalações imersivas e encontros culturais, oferecendo uma resistência efêmera ao ciclo de destruição urbana.
A iniciativa propõe um contraponto ao modelo comercial das galerias tradicionais. Segundo reportagem da Hyperallergic, Hensley e Skidmore buscam utilizar materiais perecíveis, como cera, amido de milho e vídeo, que não se adequam às exigências do mercado de arte convencional. Ao ocupar casas condenadas, o projeto não apenas celebra a memória arquitetônica, mas também tenta criar um espaço de convivência real, algo que as organizadoras veem como uma resposta necessária à crescente impessoalidade das experiências digitais e da inteligência artificial.
A poética do espaço em ruínas
A escolha das casas para o projeto segue uma lógica de ocupação temporária antes da demolição definitiva. O trabalho de Hensley e Skidmore dialoga com a ideia de "topoanálise" descrita por Gaston Bachelard em A Poética do Espaço, tratando a casa como um universo íntimo que, embora prestes a ser destruído, ainda guarda camadas de significado. Para os artistas convidados, o desafio é transformar cômodos abandonados, muitas vezes em meio a reformas interrompidas, em ambientes que explorem temas como memória, infância e a própria natureza da impermanência.
As instalações variam de projeções em janelas a esculturas feitas com restos de materiais encontrados no local. Em um dos quartos, a artista Nadia Ahmed utilizou correntes de crochê endurecidas com cera de abelha para incorporar fragmentos de seu diário escolar, enquanto outros artistas exploraram o porão como um locus de inconsciente. Essa abordagem transforma a demolição iminente em um catalisador criativo, onde o valor da obra não reside na sua preservação, mas na sua existência breve e intensa.
Resistência e o fim dos espaços de convivência
O contexto político de Seattle, que enfrenta uma crise habitacional severa, confere ao projeto um peso adicional. Em uma cidade com uma das maiores populações de rua dos Estados Unidos, a ocupação artística de um imóvel que será derrubado pode ser vista como um ato de provocação ou, no mínimo, um comentário sobre a desigualdade urbana. No entanto, o foco das organizadoras vai além da crítica habitacional: elas buscam reviver a cultura das festas e reuniões presenciais, que consideram estar em declínio frente à digitalização do lazer.
Para Skidmore, a intenção é clara: substituir o consumo passivo de conteúdos online por uma experiência coletiva e física. Ao trazer o público para dentro de uma casa prestes a desaparecer, o Once Removed força uma conexão que, segundo elas, está se perdendo na rotina contemporânea. A colaboração, que já planeja novas edições em West Seattle e no bairro de Ballard, demonstra que o modelo de intervenção atrai tanto artistas quanto desenvolvedores imobiliários dispostos a ceder o espaço temporariamente.
Implicações para o ecossistema cultural
A sustentabilidade do projeto depende de uma rede de contatos pessoais e da abertura de proprietários de imóveis. O fato de que, para as próximas edições, os próprios desenvolvedores buscaram as organizadoras sugere que há um valor simbólico na transformação desses espaços antes da destruição. Para o mercado de arte, o Once Removed levanta questões sobre o que define uma galeria e como o público valoriza a arte que não pode ser comprada ou mantida, apenas vivida.
Embora o projeto seja específico de Seattle, ele ressoa com tendências globais de ocupação criativa em cidades sob pressão imobiliária. A pergunta que permanece é se esse modelo pode ser escalado sem perder sua essência de "redemoinho" no fluxo da gentrificação, ou se ele corre o risco de ser absorvido como uma ferramenta de marketing para valorizar áreas antes de novas construções.
O futuro da impermanência
O que acontecerá com o projeto à medida que ele ganha visibilidade é uma incógnita. Até agora, a efemeridade tem sido a maior força do Once Removed, garantindo que cada exposição seja única e irrepetível. O uso de câmeras de segurança para registrar a demolição das casas, cujas imagens são compartilhadas nas redes sociais, cria uma ponte entre a experiência física e a memória digital do projeto.
O sucesso dessa iniciativa aponta para uma sede coletiva por experiências que desafiem a lógica do consumo permanente. Se o Once Removed continuará sendo uma intervenção de nicho ou se inspirará outros grupos a ocupar espaços urbanos esquecidos, dependerá da capacidade das artistas de manter a intenção original. A próxima edição em West Seattle, em uma casa de 1947, será um novo teste para essa proposta de arte como um suspiro antes do fim.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





