A estreia da Somália na 61ª Bienal de Veneza, um marco histórico para a nação, tornou-se o epicentro de uma disputa cultural intensa. Uma coalizão de organizações locais, incluindo a Somalia Arts Foundation (SAF), denunciou publicamente que artistas residentes no país não foram consultados ou incluídos na seleção oficial. O pavilhão, intitulado SADDEXLEEY, apresenta obras de três artistas somalis radicados no exterior, o que, segundo os críticos, ignora a crescente cena artística interna que busca reconstruir o setor cultural somali após décadas de instabilidade.
A controvérsia ganha contornos políticos ao envolver a nomeação do designer italiano Fabio Scrivanti como co-curador. Para coletivos locais, como o Warbixinta Cidda, a escolha evoca memórias sensíveis do período colonial italiano na região. A leitura desses grupos é que a representação nacional, quando mediada por figuras externas sem conexão orgânica com a realidade local, acaba por silenciar as vozes que vivenciam o contexto somali contemporâneo, transformando o pavilhão em um projeto desconectado da base cultural que deveria representar.
O dilema da representação nacional
A crítica central reside na disparidade entre a narrativa do pavilhão e a realidade da produção cultural dentro da Somália. Ao focar exclusivamente na diáspora, os organizadores falham em reconhecer o trabalho de artistas que permanecem no país, enfrentando desafios estruturais para manter a cena viva, argumenta a SAF. Para as organizações, a construção de uma identidade nacional em espaços globais exige um processo participativo, no qual a autoridade sobre a cultura somali não seja delegada a atores externos ou a uma elite intelectual desvinculada do território.
Dinâmicas de poder e legado
A presença de um co-curador italiano em um pavilhão que busca afirmar a soberania cultural somali levanta questões sobre o peso histórico das relações entre os dois países. Críticos apontam que essa dinâmica de poder não é neutra e reflete uma continuidade de estruturas coloniais na gestão de recursos culturais. Segundo as organizações que assinaram as críticas, os responsáveis pelo pavilhão teriam recorrido a táticas de intimidação contra vozes dissidentes — acusações que, de acordo com esses grupos, não receberam resposta pública dos comissários até o momento.
Tensões no ecossistema global
O caso da Somália reflete tensões mais amplas observadas na Bienal de Veneza deste ano, marcada por protestos e questionamentos sobre ética, política e exclusão. A resistência de artistas e coletivos somalis ecoa um movimento global de descolonização das artes, no qual instituições internacionais são instadas a prestar contas sobre quem detém o direito de falar em nome de uma nação. Para o ecossistema cultural, o episódio serve como um alerta sobre os riscos de instrumentalizar a arte em nome de uma representação que ignora as vozes locais.
O futuro da diplomacia cultural
Permanece incerto se os organizadores ajustarão a programação para incluir artistas baseados na Somália ou se o tema de um possível boicote ganhará força em parte da diáspora. A falta de transparência percebida no processo de seleção e a ausência de uma resposta oficial, apontada pelos coletivos, mantêm o impasse. O que se observa é um debate necessário sobre a legitimidade de instituições que, ao tentarem projetar uma imagem nacional, podem alienar justamente aqueles que constroem a cultura no dia a dia.
O episódio em Veneza deixa claro que a representação cultural não pode ser dissociada do processo de construção coletiva. A insistência em modelos de curadoria que priorizam o exterior em detrimento da produção local tende a reforçar divisões históricas, desafiando a Bienal a repensar suas estruturas de inclusão em um mundo que exige, cada vez mais, a escuta ativa de quem está na linha de frente da criação artística.
Com reportagem de Hyperallergic
Source · Hyperallergic





