Dois movimentos distintos, um no campo cultural e outro na esfera da segurança nacional, ilustram a complexa estratégia internacional da Coreia do Sul. Em Paris, uma exposição na feira de design Maison&Objet planeja celebrar o Hanji, uma técnica milenar coreana de fabricação de papel, buscando demonstrar sua relevância contemporânea. A iniciativa, segundo um comunicado promocional, visa destacar o potencial do material artesanal para novos usos.
Simultaneamente, em Seul, o governo adota uma medida de natureza muito diferente. Pela primeira vez em mais de sete décadas, a Coreia do Sul está ampliando sua legislação de espionagem. O objetivo, segundo o Financial Times, é proteger os segredos de sua indústria de semicondutores, um pilar da economia nacional e um ativo estratégico na geopolítica global. Juntas, essas duas frentes — uma de projeção cultural e outra de proteção industrial — oferecem um retrato da Coreia do Sul como uma nação que equilibra abertura e defesa.
A diplomacia do Hanji
A exposição "Hanji House", planejada para o centro de exposições Paris-Nord Villepinte, funciona como um exercício de soft power. Ao apresentar o Hanji — um papel tradicional feito à mão a partir da casca interna de amoreira — a um público internacional de design, a Coreia do Sul busca valorizar sua herança e associá-la à inovação contemporânea. A promoção do evento destaca a intenção de ir além do uso tradicional do material, explorando novas aplicações e reforçando a imagem do país como um centro de criatividade que une tradição e modernidade.
Esse tipo de diplomacia cultural é uma ferramenta consolidada para nações que buscam ampliar sua influência global. Ao exportar elementos de sua identidade, de K-pop a técnicas artesanais, a Coreia do Sul constrói uma marca-país positiva. A escolha de um palco como a Maison&Objet, uma das mais importantes feiras de mobiliário e design do mundo, sinaliza a ambição de posicionar seus ativos culturais em mercados de alto valor agregado, dialogando diretamente com formadores de opinião e a indústria criativa global.
A fortaleza dos semicondutores
Em forte contraste com a diplomacia cultural, a atualização da lei de espionagem revela a face pragmática e defensiva da estratégia sul-coreana. A medida reflete a crescente preocupação de Seul com a espionagem industrial, especialmente em um setor tão competitivo e geopoliticamente sensível quanto o de semicondutores. Empresas sul-coreanas como Samsung e SK Hynix estão no centro da cadeia de suprimentos global, e a proteção de sua propriedade intelectual é uma questão de segurança econômica nacional.
A decisão de endurecer a legislação pela primeira vez desde a década de 1950 indica a urgência percebida pelo governo em um cenário de rivalidade tecnológica acirrada entre grandes potências. Enquanto o país projeta sua cultura para o mundo, internamente ele ergue barreiras para proteger os motores de sua economia. Essa postura defensiva não é isolada, ecoando movimentos semelhantes de outros países que buscam resguardar suas tecnologias críticas de atores estrangeiros, sejam eles estatais ou corporativos.
Essas duas frentes, a cultural e a securitária, não são contraditórias, mas sim complementares. Elas representam as ferramentas distintas que uma potência média como a Coreia do Sul utiliza para navegar em um mundo complexo, buscando simultaneamente engajamento e proteção. A forma como Seul continuará a equilibrar a projeção de seu soft power com a defesa de seus interesses estratégicos permanece uma dinâmica central para entender sua trajetória no século 21.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





