As tarifas impostas pela administração Trump, vendidas com a promessa de repatriar empregos de manufatura para os Estados Unidos, não entregaram o resultado esperado. Pior: criaram um emaranhado de complexidade regulatória e burocrática que fragmentou ainda mais as cadeias de suprimentos globais. A afirmação, direta e sem rodeios, vem de Evan Smith, cofundador e CEO da Altana, uma plataforma de software que mapeia e gerencia redes de comércio internacional.

Em uma longa entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, Smith descreve um cenário onde a principal consequência do protecionismo não foi a reindustrialização, mas o surgimento de um novo e lucrativo mercado: o de tecnologia para navegar na ineficiência. A tese é que a “globalização 1.0”, caracterizada pela busca incessante por custos menores, chegou ao fim. O que emerge é um mundo onde a segurança nacional, a resiliência das cadeias e a conformidade regulatória ditam os fluxos comerciais. Nesse novo tabuleiro, a inteligência artificial não surge como uma ferramenta para otimizar um sistema funcional, mas como um paliativo indispensável para um sistema que se tornou deliberadamente mais complexo.

O imposto da complexidade

Um dos investidores da Altana descreveu a empresa como “uma aposta de índice na desarticulação global”. A frase captura com precisão o espírito do tempo. A instabilidade geopolítica e as barreiras comerciais, longe de serem um obstáculo, tornaram-se o próprio motor do negócio. A recente aquisição da Cervo AI, uma startup que usa IA para automatizar o preenchimento de declarações alfandegárias, é a prova material dessa estratégia. Se os governos criam mais formulários, a Altana aposta que as empresas pagarão para que robôs os preencham.

Smith admite a ironia. Questionado sobre a criação de sistemas de IA que conversam com outros sistemas de IA para superar barreiras que antes não existiam, ele reconhece o paradoxo. Contudo, sua visão é pragmática: a fragmentação é um fato consumado. A questão não é mais como revertê-la, mas como operar dentro dela. O trabalho da Altana é, em essência, construir as pontes digitais sobre os muros que a política ergueu. O custo dessa nova burocracia é repassado pela cadeia, mas a alternativa — a paralisia do comércio — é ainda pior. A tecnologia, nesse contexto, funciona como um imposto sobre a complexidade, pago por todos que participam da economia global.

Passaportes para um mundo fragmentado

A abordagem tradicional das alfândegas, segundo Smith, é um anacronismo. Cada remessa que chega a uma fronteira é tratada como se fosse a primeira vez, um evento isolado a ser inspecionado. Ele descreve o sistema de seleção de risco pós-11 de setembro como ineficaz, citando o exemplo de um governo cujo sistema de triagem tem uma taxa de acerto de apenas 0,5%. Regras como “inspecionar todo contêiner de lula congelada em busca de cocaína” porque uma vez algo foi encontrado se provam inúteis e dispendiosas. É um sistema de “agulha no palheiro” que não funciona na escala do comércio moderno.

A contraproposta da Altana é abandonar o modelo transacional e adotar o que a empresa chama de “Passaporte de Produto”. A ideia é criar um registro de bens confiáveis, continuamente monitorados e pré-validados, similar a um programa de “viajante confiável” (Trusted Traveler) em aeroportos. Em vez de inspecionar a carga na fronteira, o sistema validaria a identidade e a proveniência do produto ao longo de toda a sua jornada. Para o importador, o benefício é a previsibilidade e a agilidade. Para o governo, é a capacidade de monitorar tudo continuamente, em vez de apostar em amostragens aleatórias.

Esta visão aponta para um futuro onde o comércio não é necessariamente mais livre, mas fundamentalmente mais transparente e rastreável. A governança deixa de ser apenas sobre tarifas e cotas para se tornar uma questão de dados e visibilidade. A soberania é exercida não apenas no porto, mas ao longo de toda a rede logística digital. A IA se torna a infraestrutura que permite que esse novo pacto funcione, orquestrando um balé complexo entre empresas e reguladores em um palco cada vez mais fragmentado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Verge