A obra de Alma Thomas (1891-1978), primeira graduada do departamento de arte da Howard University e figura central do expressionismo abstrato, sempre foi celebrada por suas composições rítmicas de cor. No entanto, uma leitura mais profunda, proposta pela escritora Alexis Pauline Gumbs em um ensaio publicado pela revista Hyperallergic, sugere que suas telas são muito mais do que exercícios formais. Elas funcionam como um complexo arquivo cultural, codificando histórias da diáspora africana em cada pincelada.

A análise de Gumbs parte de uma observação feita décadas atrás pelo crítico Richard Powell, que descreveu as pinceladas de Thomas como “cornrows” — as tranças rasteiras. A metáfora é a chave para decifrar a obra: ela evoca simultaneamente as fileiras de plantações de milho, marcadas pelo trabalho forçado de africanos escravizados, e o penteado, um símbolo de identidade, resistência e da intimidade da sororidade na diáspora. Longe de ser mera abstração, a arte de Thomas estaria, assim, enraizada nas práticas tangíveis de “vestir e alimentar pessoas”, como a costura de sua mãe e o cultivo da terra por seus antepassados.

A Cor como Código

A leitura aqui é que a obra de Thomas não pode ser dissociada de seu contexto. Ao usar o termo “cornrows”, Powell e, posteriormente, Gumbs, conectam a artista a uma linhagem de práticas culturais negras. As tranças não são apenas um estilo, mas um arquivo vivo de cuidado e comunidade, um trabalho majoritariamente feminino que tece laços entre gerações e geografias. Gumbs menciona a própria experiência de trançar o cabelo da irmã e a atmosfera dos salões de beleza como espaços de conexão diaspórica, por vezes tensa, mas sempre significativa.

Essa noção de “sistering” — um ato de cuidado e preservação — é personificada na relação de Alma com sua irmã mais nova, Maurice, que viveu com ela a vida inteira e se tornou a arquivista de seu legado. As anotações de Maurice no verso de fotos e programas, clarificando as conquistas de Alma, são vistas por Gumbs como um ato curatorial íntimo, um trançar de memória e história. Nessa perspectiva, as pinceladas de Alma Thomas, com seus espaços e sobreposições, não são apenas marcas de cor, mas representações dessa complexa teia de relações, um convite a “abrir nossas coroas”, uma referência à espiritualidade ligada ao chakra coronário e à cabeça como centro de identidade.

Paisagens de Refúgio

A análise se aprofunda ao conectar a prática de Thomas a sistemas agrícolas indígenas, como o das “três irmãs” (milho, feijão e abóbora), em que as plantas crescem de forma interdependente. Assim como esse sistema resiste à monotonia da monocultura industrial, as pinturas de Thomas, com sua multiplicidade de cores e padrões, desafiam uma ordem linear e homogênea. Sua arte se torna um gesto de parentesco não apenas com a diáspora africana, mas com uma ecologia de resistência mais ampla no continente americano.

O movimento sugere a criação de uma “paisagem vista de dentro”, um conceito que Gumbs empresta da escritora Sofia Samatar. As telas de Thomas não seriam representações de um lugar, mas a criação de um espaço de abrigo. Levanta-se a questão: Alma Thomas era uma “maroon”, uma quilombola? Não no sentido de insegurança habitacional, mas talvez “marooned in time” — uma figura ilhada no tempo. Uma mulher da era das carruagens que pintou viagens à Lua, uma artista que alcançou o estrelato tardiamente, uma professora que sonhava com um mundo digno para seus alunos. Suas pinturas se tornam, então, um refúgio, um quilombo temporal onde o passado e o futuro coexistem.

Este enquadramento transforma a experiência de observar a obra de Thomas. Não se trata mais de uma apreciação puramente estética da cor e da forma, mas de um encontro com um universo de possibilidades. A arte deixa de ser um objeto a ser dominado pela crítica e se torna uma relação, um ato de “sistering” com a própria artista e seu legado. As telas não oferecem respostas, mas permanecem como uma pergunta aberta sobre pertencimento, memória e a possibilidade de encontrar abrigo em meio à impermanência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic