A gigante japonesa Asics anunciou nesta quarta-feira a cisão de sua divisão de calçados Onitsuka Tiger, que passará a operar como uma subsidiária integral sob o nome OT Group a partir de 1º de janeiro. A decisão estratégica busca conferir maior autonomia à marca, que se tornou um pilar central na rentabilidade da companhia nos últimos anos, impulsionada pelo interesse global em moda esportiva com estética retrô.
O movimento ocorre em um momento de solidez financeira para a Asics, que viu suas ações valorizarem cerca de sete vezes nos últimos cinco anos, alcançando um valor de mercado próximo a US$ 20 bilhões. Segundo reportagem da Reuters, a nova estrutura visa eliminar gargalos burocráticos que dificultavam a tomada de decisões, permitindo que a Onitsuka Tiger execute sua expansão internacional com maior agilidade e foco específico no segmento de luxo e lifestyle.
Reestruturação para destravar o crescimento
A criação do OT Group responde a uma necessidade comum em empresas que atingem escala global: a complexidade administrativa. À medida que a organização cresce, os processos de aprovação tornam-se mais morosos, o que pode comprometer a capacidade de resposta a tendências de mercado. A cisão é vista por analistas como uma medida técnica eficaz para isolar a cultura da marca de luxo do restante da operação esportiva da Asics.
Historicamente, a Onitsuka Tiger tem sido um diferencial competitivo para a companhia japonesa, funcionando como um motor de lucros consistente. Ao separar a marca, a gestão pretende preservar sua identidade única, evitando que as prioridades de massa da Asics diluam o posicionamento premium que a Onitsuka Tiger conquistou entre consumidores de moda urbana em mercados como Tóquio, Xangai e Milão.
O desafio de retomar os Estados Unidos
Um dos pontos críticos da separação é o retorno estratégico ao mercado americano. A marca havia se retirado dos EUA em 2023, resultado de um conflito de abordagens entre a administração local da Asics America e a visão da Onitsuka Tiger. A falta de consenso sobre o equilíbrio entre moda e performance esportiva travou a operação, gerando uma oportunidade perdida que a nova liderança pretende corrigir.
Ryoji Shoda, nomeado CEO do OT Group, indicou que a independência permitirá gerir a marca diretamente a partir da sede no Japão, centralizando a estratégia global. A empresa planeja inaugurar uma loja flagship em Los Angeles em fevereiro, marcando um recomeço que busca alinhar a presença americana com o sucesso que a marca já consolida em outras metrópoles globais.
Implicações para o ecossistema de moda esportiva
A estratégia da Asics coloca a marca em um patamar de competição mais direto com gigantes do setor que possuem divisões de lifestyle bem definidas. Ao operar como uma entidade separada, o OT Group ganha flexibilidade para parcerias e estratégias de marketing que não necessariamente precisam seguir os ciclos de produtos de performance da Asics. Isso cria uma dinâmica interessante para concorrentes como Nike e Adidas, que agora enfrentam uma unidade mais ágil e focada em nichos de luxo.
Para o mercado brasileiro, que tem acompanhado a expansão de marcas globais de lifestyle, o movimento da Asics ilustra a tendência de especialização de portfólio. Empresas que conseguem isolar suas marcas de maior valor agregado tendem a atrair investidores que buscam exposição a segmentos de maior margem, desvinculando o desempenho da marca da volatilidade do mercado de calçados esportivos de alta performance.
O futuro da marca como subsidiária
Embora a Asics tenha descartado, por ora, a abertura de capital da nova subsidiária, a criação de uma estrutura independente abre precedentes para futuras movimentações corporativas. A capacidade de executar o plano de expansão em lojas flagship — com inaugurações previstas em Tóquio, Nagoya, Seul e Milão — será o principal indicador de sucesso da nova gestão.
O mercado observará atentamente se a autonomia será suficiente para superar as dificuldades de gestão que marcaram o histórico recente da marca nos EUA. A transição para o modelo de subsidiária é, em última análise, um teste de agilidade corporativa em um setor onde a relevância cultural é tão volátil quanto a capacidade logística de entrega.
A separação da Onitsuka Tiger sinaliza que, para a Asics, a escala global não deve vir à custa da agilidade estratégica. O sucesso da nova estrutura dependerá da capacidade do OT Group em equilibrar a herança de quase 80 anos da marca com as demandas de um consumidor cada vez mais exigente por exclusividade e presença física em mercados estratégicos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





