As assinaturas globais de telefonia móvel 5G ultrapassaram a marca de 3 bilhões no primeiro trimestre de 2026, consolidando a tecnologia como o padrão dominante da próxima década. Segundo dados do Ericsson Mobility Report de junho de 2026, o setor adicionou 162 milhões de novas conexões no período, elevando o total para 3,1 bilhões de assinaturas ativas em todo o mundo.

A expansão reflete uma transição estrutural no setor. O avanço da infraestrutura deixa de ser pautado exclusivamente por métricas de cobertura e velocidade de download, direcionando-se agora para a monetização de redes, a integração com inteligência artificial e a otimização do tráfego de dados para novos padrões de consumo.

A evolução do tráfego e o papel da IA

Um dos fenômenos mais notáveis identificados pelo relatório é a inversão na dinâmica de consumo das redes. Pela primeira vez, a maior parte das operadoras monitoradas registrou um crescimento no tráfego de uplink — o envio de dados — que supera o volume de downlink. Em 43 das 55 operadoras analisadas, o upload cresceu de forma mais acelerada, impulsionado por ferramentas de colaboração, compartilhamento de conteúdo gerado por usuários e, principalmente, por aplicações de inteligência artificial.

A expectativa é que essa tendência se intensifique. A projeção da Ericsson indica que, até 2031, o volume de tráfego de uplink pode atingir patamares entre três e cinco vezes superiores aos registrados em 2025. Esse comportamento sinaliza que a rede móvel está se tornando uma via de mão dupla muito mais intensa, essencial para o funcionamento de modelos de IA que processam e enviam grandes quantidades de dados para a nuvem em tempo real.

Monetização e conectividade diferenciada

O amadurecimento do 5G Standalone (SA) tem permitido que as operadoras explorem modelos de negócio mais sofisticados. O uso de network slicing, que possibilita a criação de fatias de rede com níveis de desempenho garantidos, cresceu significativamente, com o número de ofertas comerciais saltando de 65 para 84 em apenas seis meses. Essa estratégia permite que empresas entreguem qualidade de serviço específica para aplicações críticas, saindo do modelo de 'pipe' genérico.

Além disso, a estratégia comercial das operadoras para o Fixed Wireless Access (FWA) está mudando. Atualmente, 71% das empresas que oferecem banda larga sem fio já trabalham com planos baseados em velocidade, um aumento relevante em relação aos 57% observados no ano anterior. O movimento indica uma tentativa de capturar valor através da diferenciação técnica, em vez de apenas competir por volume de tráfego em mercados saturados.

Desafios globais e o horizonte 6G

O cenário de adoção permanece desigual, com regiões como Europa Ocidental, América do Norte e o Nordeste Asiático liderando a penetração, que deve superar 90% até o fim da década. O Brasil e outros mercados emergentes observam essas tendências enquanto tentam acelerar a implementação do 5G SA, necessário para habilitar os mesmos modelos de monetização observados globalmente.

O setor já iniciou, inclusive, a preparação para o próximo ciclo tecnológico. Com as primeiras especificações do 6G previstas para 2028, a indústria busca integrar redes terrestres e satelitais com suporte nativo a IA. A eficiência energética e os novos recursos de sensoriamento surgem como os pilares dessa futura geração, que deve chegar ao mercado comercial por volta de 2030.

Perguntas sobre a sustentabilidade do modelo

O grande desafio para os próximos anos reside na viabilidade econômica dessas implementações. Embora a tecnologia avance, a pressão sobre as margens das operadoras exige que a monetização via IA e serviços diferenciados compense os altos investimentos em infraestrutura. A questão central é se o mercado conseguirá sustentar o crescimento do tráfego sem comprometer a rentabilidade das redes.

O que se observa é um mercado que, embora maduro em termos de conectividade básica, ainda busca o equilíbrio entre o custo de expansão e a receita por usuário. O sucesso do 5G e a transição para o 6G dependerão da capacidade das empresas em transformar a infraestrutura de rede em plataformas de serviços de alto valor agregado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside