A colisão de um asteroide com a Terra há 66 milhões de anos não apenas encerrou a era dos dinossauros, como também alterou a dinâmica biológica do planeta. Segundo pesquisa publicada na revista PNAS, a nuvem de poeira e aerossóis resultante do impacto bloqueou a luz solar por meses a anos, interrompendo a fotossíntese e provocando um colapso nas florestas.
Com a morte generalizada de plantas e a ausência de grandes herbívoros, criou-se um cenário ideal para a expansão de fungos decompositores. Diante de uma abundância sem precedentes de matéria orgânica morta, os fungos proliferaram e ocuparam rapidamente nichos de decomposição, tornando-se peças centrais na limpeza e reciclagem desse novo “planeta de detritos”.
Como a reciclagem entrou em modo turbo
A derrubada das florestas gerou camadas espessas de madeira e folhas. Os fungos, com suas enzimas capazes de degradar lignina e celulose, converteram esse material em compostos mais simples, liberando nutrientes de volta ao solo e sustentando cadeias detritívoras e microbianas. Esse processo foi vital para manter o funcionamento básico dos ecossistemas e preparar o terreno para a recuperação assim que a luz retornou e a produtividade primária pôde se restabelecer.
O que mostram as rochas
A evidência central vem da análise de amostras sedimentares da transição entre o Cretáceo e o Paleógeno. Em diversas sequências, pesquisadores identificaram concentrações elevadas de esporos fúngicos imediatamente acima da camada rica em irídio — a “assinatura” do impacto. Embora o sinal não seja idêntico em todos os locais, o padrão é consistente com uma expansão rápida de fungos decompositores em resposta ao colapso da vegetação.
Implicações para a recuperação ecológica
A intensa atividade dos micélios ajudou a estruturar o solo e a acelerar o restabelecimento dos ciclos de nutrientes. À medida que as condições de luz melhoraram, isso favoreceu a volta da germinação e do crescimento de plantas. As associações micorrízicas — parcerias antigas entre raízes e fungos — provavelmente foram decisivas para essa retomada, melhorando a absorção de água e minerais e encurtando o tempo de recuperação de biomas degradados.
O legado da escuridão
Permanece em aberto quão duradoura e ampla foi essa dominância fúngica transitória e como diferentes linhagens contribuíram para a resiliência das plantas que recolonizaram o planeta. Investigações sobre a interação fungo-planta em eventos modernos de colapso ambiental podem oferecer pistas de como acelerar a restauração de ecossistemas em cenários de mudanças climáticas abruptas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





