Em meio à urgência que muitas vezes domina o cenário de ativismo e a busca por transformação social, emerge um convite à reflexão sobre a sustentabilidade do engajamento. Conversas com ativistas experientes, como Suzy Subways, que dedicou décadas à luta em Filadélfia, revelam um paradoxo: a necessidade de agir com rapidez diante das injustiças, mas também a sabedoria de manter um ritmo que permita a longevidade. A competição desenfreada dentro de movimentos, onde cada um busca superar o outro em volume de trabalho, é um caminho autodestrutivo. "Você nunca vai ganhar", adverte Subways, pois sempre haverá alguém capaz de fazer mais. O esgotamento, ou o "bater no muro", é uma realidade para muitos que se dedicam intensamente, mas de forma insustentável. A lição, ecoando antigas fábulas, é que "devagar e sempre" pode ser o caminho, não como uma corrida, mas como um compromisso contínuo.
A Tríade da Persistência: Regularidade, Rigor e Confiabilidade
O Centro de Educação Política (CPE), uma instituição com longa trajetória no ativismo em São Francisco, oferece um arcabouço valioso para entender essa persistência: a tríade de "regular, rigoroso e confiável". Longe de ser uma prescrição rígida, esses termos funcionam como guias essenciais para quem busca um engajamento duradouro e impactante. A regularidade, o primeiro "R", trata da consistência. Significa agir de forma deliberada e contínua, seguindo planos e sendo intencional sobre como e quando as ações são realizadas. Não se trata de um frenesi, mas de um movimento sustentado que constrói ímpeto ao longo do tempo. É a garantia de que a causa não será esquecida em meio a outras demandas, mas sim mantida como prioridade.
O segundo "R", o rigor, refere-se aos padrões de qualidade que os ativistas estabelecem para si mesmos. Não se trata de cumprir exigências externas ou burocráticas, mas de levar a própria atuação a sério. Isso implica definir expectativas elevadas para as iniciativas, planejar cuidadosamente os recursos e os prazos necessários para alcançá-las, e manter-se firme em relação a esses compromissos. O rigor assegura que o trabalho realizado seja não apenas consistente, mas também de alta qualidade, maximizando o impacto de cada esforço. É a diferença entre fazer algo e fazer algo bem feito, com a profundidade que a transformação social exige.
Finalmente, a confiabilidade, o terceiro "R", é a capacidade de avaliar realisticamente o que se pode fazer e, então, cumprir os compromissos assumidos. Isso também envolve a honestidade de admitir quando não é possível seguir adiante, comunicando isso de forma responsável. A confiabilidade se constrói ao honrar as responsabilidades de forma consistente e, crucialmente, ao trabalhar para criar condições coletivas que permitam a todos cumprir seus papéis. Sistemas de acompanhamento de tarefas e apoio mútuo são exemplos de como a coletividade pode fortalecer a confiabilidade individual e grupal, garantindo que o movimento como um todo permaneça forte e coeso.
A Urgência que Pede Calma
A urgência sentida diante de injustiças e crises ambientais é legítima e fundamental para impulsionar a transformação social. No entanto, a experiência de ativistas como Helen Hudson, que luta contra o sistema prisional em Montreal, sugere que a organização sustentável é a chave para encarar essa luta como um projeto de vida, não apenas uma resposta a crises pontuais. "Quero estar pronta para dar tudo de mim... mas também acho que é muito importante organizar de forma sustentável e ver isso como algo que vou fazer pelo resto da minha vida", reflete Hudson. Essa perspectiva de longo prazo, que pode parecer contraintuitiva em momentos de crise aguda, é o que permite construir movimentos resilientes e capazes de sustentar a luta por anos, até décadas.
Pat Hussain, cofundadora da SONG (Southerners On New Ground), organização queer pela justiça racial e econômica no sul dos EUA, oferece uma visão ainda mais profunda: "algumas coisas precisamos fazer com tanta urgência que precisamos desacelerar." Essa aparente contradição se explica pela necessidade de garantir que as bases de um movimento sejam sólidas e inclusivas desde o início. Um primeiro encontro com um grupo homogêneo, por exemplo, pode definir um tom excludente que prejudica a formação de coalizões diversas e a representação de todos os impactados. Desacelerar, nesse contexto, significa garantir a inclusão, a tomada de decisão compartilhada e a construção de um movimento que reflita a diversidade e a complexidade do mundo que se busca transformar, evitando a reprodução de hierarquias sociais danosas.
Implicações para a Luta Coletiva
A abordagem de "devagar e sempre", quando aplicada ao ativismo, tem implicações profundas na forma como a urgência é compreendida e gerenciada. Em vez de cair na armadilha do "modo crise permanente", que desgasta os ativistas e limita a capacidade de planejamento estratégico, a adoção de um ritmo sustentável permite a construção de um movimento robusto e duradouro. Isso não significa ausência de ação rápida quando necessário, mas sim a capacidade de alternar entre momentos de sprint e de maratona, sempre com um olhar no quadro geral e na capacidade coletiva de sustentar o esforço.
A tensão entre a necessidade imperativa de mudança e a compreensão de que essa mudança exige um processo deliberado e, por vezes, lento, é central para o sucesso a longo prazo. Construir um futuro justo e habitável em escala massiva requer a participação de um grande número de pessoas, que gradualmente se juntam e formam novas coletividades poderosas. Mobilizações pontuais podem ser importantes, mas a verdadeira transformação advém da capacidade de construir e sustentar movimentos que se movem a um ritmo que pode ser mantido coletivamente ao longo do tempo. Essa é a essência de um ativismo que visa não apenas a vitória imediata, mas a construção de um legado duradouro.
Perguntas para o Caminho Adiante
Como, então, podemos traduzir esses princípios de regularidade, rigor e confiabilidade para a prática cotidiana do ativismo? E como podemos cultivar a sabedoria de desacelerar quando a urgência nos chama a acelerar? Essas são questões que permanecem em aberto, convidando à reflexão contínua e à experimentação dentro dos movimentos sociais. A chave pode estar em reconhecer que a luta por um mundo melhor é, em si, um processo de aprendizado e adaptação constante, onde a paciência e a atenção aos detalhes são tão vitais quanto a paixão e o idealismo.
O caminho a seguir envolve, portanto, um compromisso com a autoconsciência e a responsabilidade coletiva. Precisamos estar atentos aos sinais de esgotamento, tanto individuais quanto grupais, e buscar ativamente estratégias que promovam a sustentabilidade. A capacidade de manter a chama acesa por décadas, como demonstrado por ativistas experientes, reside na habilidade de equilibrar a urgência da causa com a resiliência da ação, construindo um movimento que seja, ao mesmo tempo, impaciente com a injustiça e paciente em sua jornada.
A persistência, entendida não como teimosia, mas como um compromisso consciente com a ação contínua e de qualidade, é o motor que pode, de fato, mover o mundo. A pergunta que fica é: como cada um de nós pode contribuir para essa engrenagem vital, garantindo que a luta por um futuro melhor seja uma maratona, não um sprint fadado ao esgotamento?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





