A adoção de tecnologias de inteligência artificial deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito de sobrevivência no ambiente corporativo. Segundo o relatório "Future of Professionals", elaborado pela Thomson Reuters a partir de dados de 1816 profissionais em 62 países, as empresas que falham em operacionalizar ferramentas de IA enfrentam riscos crescentes de perda de talentos e de base de clientes.

O estudo, que abrange setores como jurídico, fiscal, auditoria e contabilidade, revela uma desconexão preocupante entre a ambição das lideranças e a realidade operacional. Enquanto 74% dos profissionais já utilizam IA semanalmente, quase um quinto das organizações ainda carece de uma estratégia definida, forçando funcionários a buscarem soluções não autorizadas, o que expõe as empresas a vulnerabilidades de segurança e privacidade.

O abismo entre estratégia e execução

A resistência organizacional em integrar a IA não é apenas uma questão de eficiência operacional, mas um fator de desengajamento. O relatório destaca que 35% dos profissionais sentem que as metas de inovação da empresa não se traduzem em mudanças no seu dia a dia. Esse cenário fomenta o surgimento da "shadow AI", onde colaboradores utilizam ferramentas por conta própria para suprir a falta de recursos corporativos adequados.

Para o CEO da Thomson Reuters, Steve Hasker, o momento atual exige o fechamento imediato da lacuna de execução. A inércia corporativa está criando uma divisão clara no mercado: de um lado, firmas que já integram a tecnologia em seus fluxos de trabalho e, de outro, organizações que subestimam o impacto da IA no desempenho financeiro e na atração de capital humano.

O custo da inércia no mercado de trabalho

A percepção dos profissionais sobre a relevância da IA é um dos pontos mais críticos para a gestão de recursos humanos. Cerca de 62% dos entrevistados afirmam que o acesso a ferramentas de IA de nível profissional seria um fator decisivo para aceitar uma nova proposta de trabalho. Mais alarmante para as empresas, um terço daqueles que já utilizam a tecnologia rejeitaria ofertas que não incluíssem esses recursos em seu pacote de trabalho.

Existe, contudo, uma miopia por parte dos líderes. Enquanto o mercado sinaliza uma possível migração de talentos nos próximos dois anos, quase metade dos gestores acredita que essa pressão ainda levará pelo menos três anos para se materializar. Essa discrepância de percepção coloca as empresas em uma posição de desvantagem competitiva, especialmente quando o talento qualificado busca ambientes que potencializem sua produtividade.

Ameaça direta à base de clientes

A insatisfação não se limita aos colaboradores, estendendo-se à base de clientes que demanda entregas de maior qualidade. O estudo aponta que 78% dos clientes consideram essenciais as melhorias de qualidade habilitadas por IA, mas apenas 6% percebem que seus fornecedores atuais estão entregando essas capacidades. Esse descompasso prepara o terreno para uma reavaliação de contratos em massa.

O impacto financeiro é expressivo, com quase um terço dos clientes planejando revisar suas relações comerciais nos próximos 12 meses. Estima-se que cerca de US$ 143 bilhões em receitas apenas nos setores jurídico e contábil dos EUA estejam sob reconsideração ativa, dependendo diretamente da capacidade das firmas de demonstrarem valor real por meio da implementação de IA.

O futuro da retenção em um ambiente automatizado

O cenário impõe desafios complexos para reguladores e gestores. A falta de governança sobre as ferramentas utilizadas internamente, aliada à pressão por resultados, cria um ambiente de risco que as empresas ainda não aprenderam a gerenciar. A questão central não é apenas adotar a tecnologia, mas garantir que ela esteja alinhada aos padrões de conformidade exigidos pelos setores regulados.

O que permanece incerto é a velocidade com que o mercado reagirá a essa mudança de paradigma. A capacidade de reter talentos e clientes dependerá menos da promessa de inovação e mais da agilidade em transformar a inteligência artificial em uma ferramenta de trabalho cotidiana. A disputa pelo profissional qualificado e pelo cliente estratégico será vencida por quem eliminar o atrito entre a intenção e a prática.

A transição para uma operação baseada em IA parece inevitável, mas a forma como cada empresa conduz esse processo definirá sua relevância no mercado nos próximos anos. A pergunta que resta às lideranças é se a estrutura atual será capaz de evoluir antes que a migração de talentos e a perda de contratos tornem-se um movimento irreversível.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología