A aquisição da AES Brasil pela Auren, numa transação de mais de R$ 7 bilhões, deixou uma conta alta para a geradora de energia. A alavancagem da companhia disparou, rodando atualmente em torno de 5,5 vezes o EBITDA, e o processo de desalavancagem se mostra mais lento que o previsto. O resultado foi um forte ajuste no mercado de capitais: as ações da Auren acumulam queda de 20% desde o pico recente, em abril.

O movimento dividiu o mercado. De um lado, gestores veem o papel excessivamente descontado, negociando a uma Taxa Interna de Retorno (TIR) real alavancada de 15%, bem acima de seus pares. Do outro, a cautela prevalece, com a tese sendo vista como uma aposta de alto risco, excessivamente dependente de uma melhora no cenário macroeconômico brasileiro. A discussão, segundo reportagem do Brazil Journal, resume a tensão entre valuation e risco que define o momento do mercado local.

A tese do valor

Para os investidores que montam posição, a assimetria parece clara. “A empresa tem um management de excelente qualidade, ativos muito bons (...) e está negociando a um nível de valuation que aceita muito desaforo”, disse um gestor ao Brazil Journal. A TIR de 15% se compara favoravelmente aos 10% de Engie e CPFL, e aos 12% da Equatorial. A leitura é que o preço atual já embute todo o cenário negativo, desde a Selic elevada até o curtailment — a redução forçada na geração de energia eólica e solar que afeta o caixa.

A virada, segundo essa visão, ocorreria a partir de 2028. Até lá, a alavancagem deve recuar para um patamar considerado saudável, de 3,5 vezes o EBITDA. A empresa também se beneficiaria da alta esperada no preço de longo prazo da energia, já que terá cerca de 20% de seu portfólio descontratado. Adicionalmente, a alta posição vendida no papel, em torno de 20% do free float, cria as condições para um potencial short squeeze diante de qualquer notícia positiva.

O peso da dívida e do risco-país

O contraponto é igualmente pragmático. “Que está muito barato é inegável, mas qual é o risco que você está tomando?”, questiona outro gestor ouvido pela publicação. A tese de compra depende de um cenário onde os juros reais no Brasil não permaneçam em patamares elevados por muito mais tempo — uma premissa de alto grau de incerteza. A deterioração da geração de caixa com o curtailment nos ativos renováveis, que atrasou a desalavancagem em cerca de um ano, já era um risco visível no momento da aquisição da AES.

O cerne da hesitação é o risco-país. Com a situação fiscal deteriorada, o mercado prefere a liquidez do CDI a “pagar na frente” por uma tese de maturação longa e dependente de variáveis políticas e macroeconômicas. A percepção é que, embora a Auren ofereça o maior potencial de valorização no setor elétrico, ela é também a mais exposta a um cenário adverso. Qualquer queda no EBITDA, por menor que seja, compromete a trajetória de redução da dívida.

No fim, a aposta na Auren é um teste à paciência do investidor e à sua convicção sobre o futuro do Brasil. O desconto no presente é inegável, mas ele vem acompanhado de uma dívida elevada e de uma dependência macro que o mercado, cada vez mais curto-prazista, parece não estar disposto a bancar. Esperar a neblina dissipar pode significar perder o ponto de entrada ideal; entrar agora exige estômago para a volatilidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech