A recente decisão da NASA de compor a tripulação da Artemis III sem a presença de mulheres gerou questionamentos sobre a equidade em um dos setores mais avançados da ciência. Apesar de as mulheres representarem cerca de 40% do corpo de astronautas da agência, a ausência de representantes femininas na missão que dará continuidade ao programa lunar é vista como um retrocesso simbólico e prático.

Este episódio reflete o que pesquisadores chamam de "labirinto da liderança". Diferente do conceito de teto de vidro, o labirinto sugere que o caminho para o topo é navegável, porém repleto de desvios, becos sem saída e desafios sistêmicos que vão da discriminação estrutural à falta de suporte na vida pessoal.

A construção da autoconfiança fora do ambiente corporativo

Estudos realizados com 25 mulheres astronautas indicam que a liderança não é uma habilidade desenvolvida apenas em programas de gestão, mas um processo contínuo de construção da autoeficácia. Esse alicerce é formado muito antes da entrada no mercado de trabalho, passando por domínios como a infância, a educação escolar e a rede de amizades.

Para essas profissionais, o sucesso foi sustentado por pais que validaram seus interesses e professores que abriram portas decisivas. A lição para educadores e pais é clara: tratar as ambições de meninas com seriedade é o primeiro passo para criar líderes capazes de persistir diante de ambientes hostis ou excludentes.

O papel das redes de apoio e do patrocínio

O ambiente de trabalho, embora seja onde a liderança se consolida, raramente é o local onde ela nasce. A pesquisa revela que o que realmente impulsiona a carreira feminina não é apenas o encorajamento vago, mas a ação concreta de patrocinadores e o suporte de pares. Muitas vezes, a diferença entre uma candidata promissora e uma líder em campo é um empurrão direto para que ela assuma riscos.

Para executivos e gestores, o patrocínio supera o elogio. Permitir que talentos assumam novas tarefas e apoiar sua autoeficácia desde o início da trajetória profissional é uma estratégia mais eficaz do que esperar por mudanças sistêmicas que, como mostra o caso da Artemis III, podem ser lentas ou imprevisíveis.

A dimensão pessoal e o custo da parceria

Um dos fatores mais determinantes para o sucesso das líderes estudadas foi a escolha do parceiro de vida. O suporte real, que envolve a divisão de tarefas e a resolução conjunta de problemas, é o que sustenta a confiança em momentos críticos. A falta de apoio em casa pode desmantelar a trajetória de uma líder, independentemente de seu talento técnico.

As implicações para o mercado brasileiro são evidentes, especialmente em setores de alta especialização. A cultura organizacional que ignora o impacto da vida pessoal na carreira acaba perdendo talentos que não encontram o suporte necessário para equilibrar missões complexas com a vida privada.

O futuro da equidade na exploração espacial

O que permanece incerto é se a NASA ajustará seus critérios de seleção para refletir a diversidade do seu próprio quadro de talentos. A expectativa é observar como as próximas missões tratarão a representatividade, dado que a exclusão de mulheres em cargos de liderança técnica envia uma mensagem poderosa para as novas gerações.

A persistência das mulheres no labirinto da liderança depende de uma rede que transcende as empresas. Enquanto as estruturas de poder não se adaptam, a construção de comunidades de apoio e a valorização de trajetórias individuais continuam sendo os caminhos mais viáveis para quem busca o topo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune