A seguradora britânica Aviva identificou um aumento alarmante no uso de ferramentas de inteligência artificial para a falsificação de pedidos de indenização. Segundo reportagem do The Register, a companhia interceptou mais de 18.400 tentativas de fraude ao longo de 2025, envolvendo desde documentos oficiais forjados até imagens de acidentes automotivos geradas por IA para exagerar danos reais ou criar sinistros inexistentes.

O impacto financeiro dessas ações é expressivo. Se tivessem sido aprovados, os pedidos fraudulentos totalizariam £233 milhões, uma média diária de £638 mil. O segmento de seguros automotivos lidera as ocorrências, marcando uma mudança de paradigma onde o fraudador abandona a encenação física de colisões em favor da manipulação digital de evidências.

A transição da fraude física para a digital

Historicamente, o mercado de seguros lidava com o chamado "crash for cash", onde fraudadores encenavam acidentes reais para obter pagamentos. A ascensão de ferramentas generativas de IA tornou esse processo mais barato e menos arriscado. Hoje, o fraudador não precisa mais expor seu veículo ou a si mesmo ao perigo; basta utilizar softwares para alterar fotos, inflar orçamentos de reparo e criar relatórios médicos falsos com aparência profissional.

Essa sofisticação tecnológica exige que as seguradoras reavaliem seus processos de auditoria. A capacidade de gerar evidências convincentes rapidamente reduz a barreira de entrada para criminosos oportunistas, transformando a verificação de sinistros em um jogo de gato e rato digital. A escala do problema sugere que a IA não está apenas automatizando a fraude, mas tornando-a um modelo de negócio escalável para agentes mal-intencionados.

O papel dos facilitadores profissionais

Além da tecnologia, a Aviva aponta para a existência de "facilitadores profissionais". Trata-se de uma rede de advogados e profissionais da saúde que, de forma desonesta, validam as informações manipuladas. Esse suporte técnico eleva o valor médio das fraudes, especialmente em seguros de responsabilidade civil e saúde, onde a complexidade documental é maior e mais difícil de ser contestada por sistemas automatizados.

A presença desses profissionais sugere que a fraude moderna não é apenas um ato isolado de um segurado, mas uma operação que envolve conluio especializado. A combinação de IA generativa com o conhecimento técnico de especialistas cria uma camada de legitimidade que engana os sistemas de triagem tradicionais, exigindo que as seguradoras busquem padrões de comportamento que vão além da simples análise visual da documentação.

Implicações para o ecossistema de seguros

O custo dessas fraudes recai, inevitavelmente, sobre o segurado honesto. À medida que o volume de sinistros falsos cresce, as seguradoras são forçadas a investir pesadamente em contramedidas, como o uso de suas próprias ferramentas de análise avançada e IA para detecção de anomalias. Esse investimento operacional acaba sendo repassado nos prêmios de seguro, criando um ciclo inflacionário de custos para toda a sociedade.

Para o mercado brasileiro, o cenário serve como um alerta preventivo. À medida que a digitalização dos serviços de seguro avança no país, a vulnerabilidade a fraudes geradas por IA torna-se uma questão crítica de segurança cibernética e operacional. A regulação e a colaboração entre seguradoras para compartilhar bases de dados de fraudes serão fundamentais para conter essa onda antes que ela atinja escalas similares às observadas no Reino Unido.

O futuro da verificação de sinistros

A eficácia das ferramentas de detecção baseadas em IA permanece como uma incógnita diante da evolução constante dos modelos generativos. O desafio está em equilibrar a agilidade no pagamento de sinistros legítimos com a necessidade de uma verificação cada vez mais rigorosa e, por vezes, invasiva.

O que se observa é que a confiança, base do contrato de seguro, está sendo testada por novas tecnologias. A capacidade das seguradoras de manterem a integridade de seus processos, sem alienar clientes legítimos, definirá os vencedores nesta nova era de fraudes digitais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register