A transição de uma startup promissora para uma gigante de mercado raramente é um salto linear. Muitas vezes, o maior obstáculo para o crescimento exponencial não reside na falta de capital, mercado ou estratégia, mas na própria figura do fundador. Na B55 Conference, um evento promovido pelo Instituto B55, nomes como David Vélez (Nubank), Guilherme Benchimol (XP) e André Street (Stone) compartilharam insights sobre como superar essa barreira, defendendo a necessidade de migrar de um modelo de "heróis" para um de "sistemas".

De Heróis a Sistemas: A Migração Necessária

A lição central que ecoou no painel “Construindo negócios que mudam o mercado” é que a dependência excessiva de indivíduos excepcionais, os chamados "heróis", é inerentemente insustentável para o crescimento em larga escala. Guilherme Benchimol, fundador da XP, ressaltou que as competências que levam um negócio do zero ao sucesso inicial nem sempre são as mesmas exigidas para sustentar uma organização em expansão. "A fórmula mágica é mágica temporariamente", alertou Benchimol, sugerindo que fundadores precisam se adaptar e evoluir, pois a estagnação muitas vezes ocorre quando o empreendedor não consegue se transformar junto com a empresa. David Vélez, do Nubank, corroborou essa visão ao descrever a evolução da fintech como uma migração deliberada de uma estrutura dependente de pessoas para uma baseada em processos robustos. "Não é escalável depender de heróis. Eventualmente, você tem que construir sistemas que ajudem a escalar", afirmou Vélez, destacando que, embora o propósito fundamental possa permanecer, a forma de operar deve se adaptar continuamente para atender às demandas de uma operação maior.

O Foco em Pessoas e Cultura como Pilar

Um tema recorrente e crucial abordado pelos fundadores foi a gestão de pessoas. Benchimol enfatizou que, enquanto muitos empreendedores se dedicam apaixonadamente a produto, vendas ou tecnologia, a construção de equipes fortes pode ser negligenciada. Para ele, o crescimento sustentável passa, invariavelmente, pela capacidade de atrair talentos, desenvolver líderes e, quando necessário, tomar decisões difíceis sobre o quadro de pessoal. "Você tem que gostar de gente, de trabalhar com gente", aconselhou, sugerindo que empreendedores que não possuem essa inclinação podem optar por modelos de negócio menores e mais focados. A meritocracia, segundo Benchimol, deve ser uma combinação de resultados e comportamento, e um erro comum é manter funcionários por gratidão ou por contribuições passadas, mesmo que já não se alinhem às necessidades atuais da empresa. Cristhiano Faé, CEO do B55, complementou que pesquisas indicam que a gestão de pessoas é um dos maiores desafios para empresários brasileiros, com um erro frequente sendo a demora em identificar e agir sobre contratações que não estão performando conforme o esperado.

Recrutamento em Escala e a Construção da Cultura

André Street, fundador da Stone, destacou a importância de construir uma cultura forte e desenvolver pessoas como elementos centrais na transformação do fundador. "As primeiras mil pessoas determinam a cultura das próximas 15 mil ou 20 mil", disse Street, sublinhando o papel estratégico do recrutamento. A Stone adotou a tese de criar um polo de atração para os melhores profissionais, em vez de depender apenas de esforços de convencimento. "Melhor do que simplesmente tentar convencer alguém é criar um polo de atração a partir do que você faz. Com uma causa nobre e uma visão clara de futuro, você consegue atrair as pessoas certas." À medida que a empresa crescia, o recrutamento em "escala industrial" tornou-se vital, com programas como o Recruta Stone gerenciando mais de 100 mil candidatos anualmente. O processo buscava profissionais com inteligência, energia e integridade, e a imersão dos novos colaboradores nos valores e cultura da empresa foi fundamental para preservar a identidade organizacional mesmo em fases de expansão acelerada.

Implicações e o Futuro do Crescimento

A sabedoria compartilhada na B55 Conference oferece um roteiro valioso para empreendedores brasileiros. A transição de um modelo centrado no fundador para um baseado em sistemas e cultura forte não é apenas uma questão de eficiência, mas uma necessidade para a longevidade. As empresas que conseguem implementar essa mudança estão mais bem posicionadas para navegar pelas complexidades do crescimento, atrair e reter talentos de ponta e, em última instância, construir um legado duradouro que transcenda a visão de uma única pessoa.

Ao focar no desenvolvimento de pessoas, na consolidação de uma cultura organizacional coesa e na implementação de processos escaláveis, os líderes empresariais podem criar organizações resilientes e capazes de enfrentar os desafios do mercado, garantindo que o sucesso inicial se traduza em um crescimento sustentável e impactante. A mensagem é clara: o futuro pertence às empresas que sabem escalar não apenas seus negócios, mas também suas equipes e suas estruturas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney