A BAE Systems está na vanguarda de uma inovação que pode redefinir a segurança e o monitoramento de infraestruturas submarinas. A empresa de defesa e aeroespacial está testando o uso de inteligência artificial (IA) em conjunto com cabos de fibra óptica já existentes no fundo do oceano para criar uma vasta rede de sensores acústicos. O objetivo é transformar a infraestrutura de comunicação, originalmente projetada para transmitir dados, em uma ferramenta capaz de detectar uma ampla gama de ameaças e atividades no ambiente marinho.
A rede de sensores invisível
A tecnologia central dessa pesquisa é o Sensoriamento Acústico Distribuído (DAS). O DAS funciona analisando as mínimas vibrações que ocorrem ao longo de um cabo de fibra óptica. Pulsos de luz são enviados pelo cabo, e a forma como essa luz retorna, após ser levemente dispersa pelas vibrações, é analisada. Pequenas alterações na luz refletida podem indicar a passagem de uma embarcação, um evento sísmico, ou até mesmo a presença de animais marinhos. Essencialmente, o DAS permite que centenas de quilômetros de cabos submarinos atuem como uma rede contínua de microfones, captando sons e vibrações no leito oceânico.
Embora o DAS já seja aplicado em ambientes terrestres, sua adaptação para o ambiente submarino apresenta desafios únicos, mas também abre um leque de novas possibilidades. A grande vantagem é a capacidade de aproveitar a infraestrutura de cabos de fibra óptica já instalada, evitando a necessidade de implantar novos e caros sistemas de monitoramento. Inicialmente, a pesquisa focava em monitorar a integridade dos próprios cabos de energia, buscando identificar falhas, atividade sísmica ou danos acidentais. Contudo, o projeto evoluiu para aplicações de vigilância mais amplas, como a detecção de embarcações que possam representar riscos a estruturas sensíveis, permitindo que operadoras tomem medidas preventivas.
O desafio de interpretar o oceano
O principal gargalo dessa tecnologia não está na captação dos sons, mas na interpretação da imensa quantidade de dados gerados. Uma única unidade de DAS pode produzir até um petabyte de dados por dia – um volume colossal que exigiria uma análise humana insustentável. É aqui que a inteligência artificial entra como peça-chave. A BAE Systems explora o uso de algoritmos de machine learning para processar esses dados, distinguindo sinais relevantes de ruído. A meta é diferenciar, por exemplo, o som de uma baleia, de um contêiner à deriva, de um pequeno barco de pesca ou de uma embarcação suspeita. Essa classificação automática pode reduzir drasticamente o volume de informações que necessita de atenção direta dos operadores, permitindo que se concentrem em eventos potencialmente críticos.
A integração com outras fontes de dados, como radares, satélites e sistemas de Identificação Automática de Embarcações (AIS), também é um pilar da pesquisa. Ao combinar informações de diferentes tecnologias, constrói-se uma visão mais completa e precisa do ambiente marítimo. A expectativa é que, com o aprimoramento dos algoritmos, seja possível até mesmo reconhecer embarcações específicas por suas assinaturas acústicas, adicionando uma nova camada de inteligência aos sistemas de vigilância marítima. O potencial se estende ao monitoramento de pesca ilegal e à identificação de atividades suspeitas em áreas protegidas.
Implicações para a infraestrutura crítica e segurança
A relevância dessa tecnologia para o Brasil é inegável. O país conta com uma extensa rede de cabos submarinos de fibra óptica que o conectam ao resto do mundo, com Fortaleza (CE) sendo um ponto crucial de chegada dessas conexões. A segurança dessas infraestruturas é vital para a continuidade das comunicações e a resiliência digital do país. Além disso, as operações de petróleo e gás em águas brasileiras, especialmente no pré-sal, demandam um monitoramento constante do ambiente submarino para garantir a segurança das instalações offshore. Tecnologias como a proposta pela BAE Systems, que aproveitam infraestruturas existentes, podem oferecer uma solução complementar e potencialmente mais econômica aos sistemas de vigilância atuais. A proteção dessas conexões internacionais é um componente fundamental na discussão sobre soberania digital e na redução da vulnerabilidade de ativos estratégicos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





