Um consórcio global composto por alguns dos bancos centrais mais influentes do mundo, incluindo o Federal Reserve de Nova York e instituições do Japão, Coreia e México, intensificou os testes do Projeto Agora. Esta iniciativa, coordenada pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), visa reformular a arquitetura dos pagamentos internacionais, tornando-os operacionais 24 horas por dia, sete dias por semana. O avanço representa uma resposta direta à ineficiência do sistema atual, que depende de uma cadeia complexa de bancos correspondentes, resultando em processos lentos e custos elevados para transações transfronteiriças.

Segundo informações da Reuters, os testes recentes comprovaram a viabilidade técnica de utilizar reservas tokenizadas de bancos centrais em conjunto com depósitos tokenizados de instituições comerciais. A iniciativa conta com a colaboração de mais de 40 grandes bancos globais e busca alinhar-se às prioridades estabelecidas pelo G20 para a modernização financeira. Embora o projeto ainda não esteja em fase de produção, a entrada do Banco Central do Canadá sinaliza uma expansão do interesse institucional em soluções de infraestrutura financeira digital.

A busca pela eficiência no sistema financeiro

O sistema de pagamentos internacionais, estruturado historicamente sobre a rede de bancos correspondentes, enfrenta desafios estruturais significativos. A necessidade de múltiplos intermediários em uma única transação não apenas eleva os custos, mas também introduz riscos operacionais e atrasos, especialmente quando moedas de economias emergentes estão envolvidas. O Projeto Agora propõe uma mudança de paradigma ao introduzir a tokenização, permitindo que as moedas nacionais sejam processadas como ativos digitais em um ambiente unificado.

Ao manter a autonomia sobre os registros de suas respectivas moedas, os bancos centrais participantes conseguem preservar a soberania monetária e a conformidade com as regras legais locais. Essa arquitetura de protótipo em camadas é fundamental para garantir que a inovação não comprometa a estabilidade ou a supervisão regulatória. A transição para um ecossistema tokenizado é vista pelos reguladores como a via mais eficiente para atingir a liquidez contínua, superando as limitações dos horários bancários tradicionais e dos sistemas de compensação legados.

O mecanismo da liquidação atômica

Um dos pilares técnicos testados pelo grupo é a chamada liquidação atômica. Este mecanismo permite que transações entre diferentes moedas sejam concluídas de forma simultânea e irreversível, eliminando o risco de liquidação que ocorre quando uma parte entrega o ativo enquanto a outra ainda não processou o pagamento. Ao garantir que a transação ocorra no formato "tudo ou nada", o sistema aumenta a segurança e reduz a necessidade de garantias colaterais pesadas entre os bancos envolvidos.

O sucesso desses testes em escala demonstra que a tecnologia de registro distribuído, quando governada por instituições centrais, pode oferecer a robustez necessária para o mercado financeiro global. A coordenação entre os bancos comerciais e centrais, mediada pelo Instituto de Finanças Internacionais, tem sido essencial para validar que os protocolos tokenizados podem operar de maneira interoperável, respeitando as exigências de compliance e de combate à lavagem de dinheiro que sustentam o sistema financeiro atual.

Tensões e concorrência no cenário global

O cenário de pagamentos digitais globais não é homogêneo, apresentando divisões claras entre diferentes blocos de influência. O Projeto Agora é frequentemente comparado ao mBridge, uma iniciativa liderada pela China que envolve países como Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. A ausência de instituições chinesas no Agora reflete uma "constelação" distinta de participantes, sugerindo que a corrida pela modernização da infraestrutura financeira global também está sendo moldada por alinhamentos geopolíticos e estratégicos.

Além disso, a proposta da Índia para vincular moedas digitais entre os países membros do Brics adiciona uma camada extra de complexidade ao tabuleiro. Para o ecossistema brasileiro, o acompanhamento desses desenvolvimentos é estratégico. A capacidade de integrar o Real Digital em redes globais tokenizadas pode definir o papel do país nos fluxos de comércio exterior e na eficiência das remessas internacionais, impactando diretamente a competitividade das empresas brasileiras no mercado externo.

Perspectivas para o futuro dos pagamentos

O que permanece incerto é a velocidade com que esses protótipos migrarão para ambientes de produção em larga escala. A transição exige não apenas a superação de barreiras técnicas, mas também um consenso político global sobre padrões de interoperabilidade e governança de dados. A escalabilidade do sistema dependerá da adesão de mais jurisdições e da capacidade de manter a segurança em um ambiente de transações ininterruptas.

Observar os próximos passos dos bancos centrais no Agora e em iniciativas paralelas será fundamental para entender se o mundo caminha para um sistema financeiro fragmentado em blocos tecnológicos distintos ou para uma rede global unificada. A questão central não é mais se a tokenização será adotada, mas qual modelo de governança prevalecerá na nova infraestrutura financeira que está sendo desenhada pelos reguladores. Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney