Um grupo de instituições financeiras focadas em práticas éticas e organizações da sociedade civil enviou uma carta formal à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, manifestando preocupação com os planos de simplificação regulatória para o setor bancário. O movimento, que conta com nomes como Triodos Bank, Banca Etica e a associação Asufin, busca garantir que a busca por eficiência não resulte em um relaxamento dos requisitos de capital que sustentam a estabilidade do sistema financeiro europeu.

A missiva argumenta que, embora a simplificação seja um objetivo legítimo para eliminar duplicidades e reduzir a discricionariedade nacional, ela não deve servir como pretexto para enfraquecer os mecanismos de resiliência estabelecidos pelos acordos de Basilea. Segundo o grupo, a rentabilidade dos bancos europeus é robusta, e a diferença de valuation em relação aos pares americanos decorre de modelos de negócio distintos, não de um suposto excesso de regulação prudencial.

A natureza da regulação prudencial

A regulação bancária na União Europeia tem sido historicamente marcada por uma estrutura complexa, desenhada para evitar a repetição de crises sistêmicas. O arcabouço de Basilea, que estabelece os padrões globais para a adequação de capital, funciona como uma rede de segurança que obriga as instituições a manterem reservas suficientes para absorver choques econômicos. A simplificação proposta por Bruxelas visa tornar o mercado único mais ágil, mas esbarra na tensão entre competitividade e segurança.

Para os bancos éticos, o risco de uma desregulamentação mal planejada é a erosão da confiança no sistema. Ao contrário de modelos voltados apenas para a maximização de dividendos de curto prazo, a banca ética defende que a estabilidade é um ativo que sustenta o crescimento a longo prazo. A preocupação é que o lobby por uma regulação mais flexível, frequentemente impulsionado pela necessidade de competir com o mercado americano, acabe por desmantelar salvaguardas que foram conquistadas após anos de reformas pós-crise financeira.

O mecanismo de resiliência em jogo

O cerne do debate técnico reside nos chamados "colchões de capital" e na forma como os riscos são ponderados nas carteiras bancárias. Quando se fala em simplificação, o mercado geralmente interpreta como uma redução dos custos de conformidade ou uma flexibilização das métricas de risco. Contudo, qualquer alteração que permita aos bancos manter menos capital em reserva reduz, automaticamente, a capacidade de absorção de perdas em cenários de estresse macroeconômico.

O argumento das entidades signatárias é que a rentabilidade dos bancos europeus não é prejudicada pela regulação, mas sim por decisões estratégicas e pela estrutura de mercado. Ao confrontar a narrativa de que a regulação prudencial seria um entrave à competitividade, essas instituições sugerem que o foco de Bruxelas deveria estar na eliminação de redundâncias operacionais, e não na redução de exigências de capital que protegem os depositantes e o sistema como um todo.

Tensões entre competitividade e segurança

A pressão por um mercado de capitais mais dinâmico na União Europeia coloca reguladores em uma posição delicada. De um lado, há a necessidade de financiar a transição energética e tecnológica, o que exige bancos mais capitalizados e dispostos a assumir riscos. Do outro, a memória das crises passadas impõe uma cautela que é traduzida em exigências regulatórias rigorosas. O embate entre esses dois vetores define o tom das discussões atuais em Bruxelas.

Para o ecossistema financeiro como um todo, a posição dos bancos éticos serve como um contraponto necessário aos interesses dos grandes conglomerados bancários que buscam, frequentemente, menores restrições de capital para melhorar o retorno sobre o patrimônio líquido. A questão central, que permanece aberta para investidores e reguladores, é se o sistema europeu conseguirá encontrar um equilíbrio que promova o crescimento sem sacrificar a solidez que o tornou resiliente na última década.

Perspectivas e incertezas regulatórias

O desdobramento dessa carta depende agora de como a Comissão Europeia irá articular sua agenda de simplificação nos próximos meses. O desafio será separar o que é burocracia ineficiente do que é, de fato, uma salvaguarda essencial contra riscos sistêmicos. A reação dos reguladores nacionais e do Banco Central Europeu será determinante para definir se as demandas por manutenção de capital serão atendidas ou se o bloco optará por um afrouxamento gradual.

O cenário permanece nebuloso, com diversos stakeholders monitorando de perto qualquer sinal de mudança nas regras de Basilea aplicadas no território europeu. A evolução desse debate terá implicações diretas sobre o custo de capital e a estabilidade das instituições financeiras, servindo como um teste importante para a resiliência do projeto de mercado único europeu frente às pressões por desregulamentação.

A discussão sobre a simplificação regulatória na Europa está apenas começando, e o equilíbrio entre eficiência operacional e segurança financeira continua sendo o ponto de maior atrito entre as diferentes visões sobre o papel dos bancos na economia real. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España