A euforia em torno da inteligência artificial (IA) tem inflado avaliações de empresas e alimentado expectativas de uma revolução produtiva. No entanto, um olhar mais atento aos balanços trimestrais de grandes bancos revela uma relutância em quantificar os ganhos financeiros concretos advindos dessa tecnologia. O CEO do Bank of America, Brian Moynihan, mencionou em setembro de 2026 que o banco possuía entre 130 e 140 projetos de IA, com um custo de US$ 400 milhões e um benefício projetado de US$ 800 milhões. Contudo, a expectativa é que esse número não seja explicitado na primeira chamada de resultados após a declaração, em outubro. Uma análise de 919 chamadas de resultados de 60 grandes empresas financeiras listadas nos EUA desde janeiro de 2023 revelou apenas uma empresa, a S&P Global, quantificando o benefício de sua ferramenta Kensho Scribe em cerca de US$ 9 milhões anuais. Analistas questionaram sobre tais números 29 vezes, sem obter respostas concretas. Fora do setor financeiro, de tecnologia e comunicação, apenas a FedEx credenciou um novo processo de captura de imagem por IA a um benefício anualizado de mais de US$ 180 milhões.

O Padrão Histórico das Bolhas Tecnológicas

A hesitação em divulgar números concretos não diminui o potencial transformador da IA, mas sugere que a adoção e a mensuração de seus benefícios seguem um caminho mais árduo e demorado do que o otimismo corrente sugere. Economistas como Carlota Perez descreveram detalhadamente o ciclo de vida das bolhas tecnológicas. A IA parece seguir esse mesmo roteiro: um investimento inicial maciço em novas tecnologias, processos e habilidades, cujos resultados tangíveis na produtividade demoram a se materializar. Robert Solow, em 1987, observou que a era do computador era visível em todos os lugares, exceto nas estatísticas de produtividade. Uma pesquisa de 1994 sobre projetos de reengenharia mostrou que a maioria produziu resultados medíocres ou falhos, apesar de a tecnologia da informação ter sido responsável por dois terços do aumento da produtividade no final da década.

A Rápida Erosão da Vantagem Competitiva e o Custo Crescente

Outro fator relevante é a rápida obsolescência das vantagens tecnológicas. Fundos quantitativos na China, que inicialmente se destacaram pela adoção acelerada de IA, viram sua superioridade sobre gestores humanos diminuir significativamente em poucos meses, chegando a registrar perdas em julho de 2026. Paralelamente, o custo da IA tornou-se uma preocupação crescente dentro das próprias empresas. Em chamadas de resultados financeiras recentes, o tema custo de IA apareceu em 53% das discussões, um salto de 3% no final de 2022. A otimização de gastos com IA já é uma realidade, com empresas buscando reduzir custos e se tornarem agnósticas em relação a fornecedores. A era de "tokenmaxxing", onde a adoção era priorizada acima da eficiência, parece ter chegado ao fim.

Implicações para Investidores e o Ecossistema Brasileiro

Para os investidores, o cenário atual exige cautela. A promessa de ganhos exponenciais em um futuro próximo pode mascarar a realidade de um ciclo de adoção mais longo e com retornos concentrados em um subconjunto de empresas, cujas vantagens tendem a se dissipar rapidamente. A pressão para parecer uma "empresa de IA" é clara, especialmente para aquelas em busca de capital. No Brasil, embora a adoção de IA em finanças ainda esteja em estágios iniciais comparada aos EUA, o padrão de investimento e a busca por eficiência de custos devem ser observados. O desafio será replicar o sucesso de forma sustentável, evitando a armadilha de investir pesadamente em tecnologias cujos benefícios tangíveis demoram a se concretizar e cuja vantagem competitiva é efêmera.

Perguntas em Aberto e o Futuro Próximo

O que os próximos relatórios trimestrais revelarão? Será que o Bank of America, ou outros grandes bancos, finalmente apresentarão números concretos sobre o retorno de seus investimentos em IA? Ou as respostas dos analistas continuarão a ser evasivas, mencionando porcentagens, reduções de headcount ou a dificuldade intrínseca de provar os resultados? A resposta a essas perguntas definirá se o atual frenesi em torno da IA é um prenúncio de ganhos reais e duradouros ou apenas mais um capítulo na longa história das bolhas tecnológicas, onde o entusiasmo inicial se choca com a dura realidade dos custos e da mensuração de valor. A capacidade de otimizar o uso da IA e demonstrar seu retorno financeiro será crucial para as empresas que buscam prosperar nesse novo cenário.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune