A Praça da Catalunha, em Barcelona, tornou-se palco de um novo capítulo no embate entre ativistas por moradia e as autoridades municipais. Desde a última terça-feira, uma parte significativa da praça, onde se localizam mais de 600 barracas de um acampamento que protesta contra a crise habitacional, está às escuras. A medida, justificada pela prefeitura como uma ação de segurança pública, gerou forte reação dos acampados, que a veem como uma tentativa de desmobilização.
Conflito de Narrativas: Segurança vs. Desgaste
Segundo o Ayuntamiento de Barcelona, a decisão de cortar o fornecimento de energia elétrica baseou-se em um relatório dos Bombeiros que apontava para conexões irregulares e potencialmente perigosas à rede pública da praça. A prefeitura, sob gestão socialista, alega que a integridade física dos ocupantes estava em risco iminente, com a possibilidade de incêndios decorrentes de instalações precárias. No entanto, o relatório não foi tornado público, e o alcance exato do corte de energia – se apenas em parte das luminárias ou em toda a área ocupada – permanece em disputa, com relatos divergentes sobre a extensão da escuridão.
Os acampados, por sua vez, refutam as alegações de risco e apontam que a conexão elétrica existia desde o início do acampamento, tendo sido tolerada por três semanas. Para eles, o corte abrupto, ocorrido logo após terem formalizado um pedido ao Ayuntamiento por garantias mínimas de água, eletricidade e iluminação, é uma clara estratégia de desgaste. A porta-voz Kiara Monrroy declarou que não houve advertência prévia sobre riscos elétricos e que a falta de resposta municipal às suas demandas é um indicativo da intenção de forçar a saída.
O Acampamento como Nova Forma de Bairro
O acampamento na Praça da Catalunha, que surgiu como eco do movimento em Madri, transcende a ideia de uma simples manifestação temporária. Superando 600 barracas, o local tem demonstrado uma organização interna notável, com regras de convivência estabelecidas, incluindo um toque de silêncio a partir da meia-noite e meia. Uma comissão de cozinha chega a preparar entre 300 e 400 refeições diárias, e um espaço dedicado a pessoas em situação de rua oferece abrigo e alimentação a cerca de quinze a vinte indivíduos diariamente. Portavoces como León, que concilia o ativismo com seu trabalho como monitor escolar, descrevem o acampamento como um "bairro organizado", onde residentes trabalham, estudam e dormem, apesar das condições climáticas, como as recentes chuvas e ventos.
A Arena Administrativa da Luta por Moradia
O corte de energia em Barcelona ecoa táticas observadas em outras cidades, como Madri, onde a pressão sobre acampamentos por moradia também se manifesta em terrenos administrativos. Na capital espanhola, a estação de metrô próxima ao acampamento chegou a ser fechada por questões de limpeza, e o Ayuntamiento solicitou o censo das barracas. Em ambos os casos, o embate se desenrola através de relatórios técnicos, medições ambientais e controle de suprimentos. A disputa pela moradia digna, portanto, se joga em uma complexa arena burocrática, onde a infraestrutura urbana se torna um campo de batalha.
Os acampados em Barcelona afirmam que a permanência no local está garantida, ao menos, até a greve geral de 11 de novembro e, se necessário, até as eleições de 29 de novembro. A prefeitura, por sua vez, não esclareceu se o fornecimento de energia será restabelecido ou se o corte é permanente. Enquanto isso, a área ocupada permanece escura e isolada por cercas. O tenente de Segurança, Albert Batlle, considera um desalojo "desaconselhável e totalmente irresponsável", mas a tensão na Praça da Catalunha, palco histórico de manifestações como o 15-M em 2011, permanece palpável, evidenciando a persistência da luta por moradia na Espanha.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka




