Aos 86 anos e enfrentando cuidados paliativos, o ex-congressista democrata Barney Frank emerge como uma voz dissidente dentro de seu próprio campo político. Em seu novo livro, "The Hard Path to Unity", o veterano de Massachusetts tece uma crítica contundente ao que descreve como uma ala ideológica que sequestrou a agenda do Partido Democrata. Segundo reportagem da The Atlantic, Frank argumenta que temas como fronteiras abertas, cortes no financiamento policial e o rigorismo linguístico em torno de pronomes criaram uma plataforma que repele o eleitorado, minando a capacidade da legenda de dialogar com a maioria moderada do país.

A tese de Frank é de que o sucesso histórico do progressismo em pautas econômicas foi ofuscado por uma obsessão cultural que aliena o trabalhador comum. Para o ex-parlamentar, o partido permitiu que a percepção pública fosse capturada por posições extremas, muitas vezes sem que a liderança partidária tivesse a coragem de se contrapor. O movimento, segundo o autor, não é apenas um erro de estratégia, mas um equívoco de percepção: muitos ativistas acreditam genuinamente que suas posições radicais são populares, quando, na realidade, elas funcionam como um combustível para a reação conservadora.

O legado de um pragmático

Ao longo de seus 32 anos no Congresso, Frank consolidou-se como um dos arquitetos mais influentes da legislação progressista, sendo figura central na luta pelos direitos LGBTQ+ e na regulação financeira após a crise de 2008. Sua trajetória, marcada por ter sido o primeiro parlamentar federal a assumir publicamente sua homossexualidade em 1987, confere-lhe uma autoridade moral que torna sua crítica atual ainda mais incômoda para a esquerda americana. Ele não ataca os ideais de justiça social, mas o método de imposição de pautas que, na sua visão, ignoram a realidade sociopolítica do país.

O contexto histórico de Frank é o de um liberalismo que buscava a inclusão através de mecanismos institucionais, o que ele chama de "escudos". Ele contrasta essa abordagem com o uso de "espadas" — políticas intervencionistas que buscam forçar mudanças comportamentais sem o devido consenso social. Para o ex-deputado, a história do movimento pelos direitos civis mostra que o sucesso depende da construção de alianças graduais, e não da imposição de testes de pureza ideológica que garantem a derrota legislativa e eleitoral.

A armadilha do radicalismo

O mecanismo que Frank descreve é o da autossabotagem. Ao insistir em temas divisivos, como a participação de mulheres trans em esportes femininos ou a despenalização de travessias de fronteira, o Partido Democrata entrega munição de bandeja para a oposição. O problema, segundo o autor, é a crença de que a vitória em pautas econômicas — como a redução da desigualdade — daria ao partido um cheque em branco para promover uma agenda de engenharia social profunda, para a qual a sociedade americana não está preparada.

Essa dinâmica é exacerbada por uma cultura de intimidação interna. Frank relata que muitos correligionários compartilham de suas preocupações, mas evitam o debate público por medo de represálias de ativistas ou de serem rotulados como traidores da causa. O resultado é um vácuo onde a voz dos moderados é abafada, permitindo que a percepção externa de que o partido é refém de dogmas identitários se consolide, o que, ironicamente, facilita o avanço do populismo de direita que a esquerda tanto combate.

Tensões e implicações

As implicações desse debate transcendem as fronteiras dos Estados Unidos. Em muitos países ocidentais, partidos de centro-esquerda enfrentam o mesmo dilema: como equilibrar a agenda de direitos de minorias com a necessidade de manter uma base de apoio entre a classe trabalhadora, que muitas vezes prioriza a estabilidade econômica e a ordem social. O caso de Frank serve como um alerta de que a política é, fundamentalmente, a arte de conquistar a maioria, e não a de purificar a minoria.

Para os democratas, o desafio é reverter a imagem de um partido que se desconectou do cidadão médio. Frank sugere que a solução passa pela moderação e pelo foco em políticas tangíveis, evitando a tentação de se mover para a esquerda toda vez que um candidato é escolhido. A resistência a essa mudança, contudo, permanece forte, alimentada por uma base ativista que vê qualquer concessão ao centro como uma capitulação moral.

Perguntas sem resposta

O que permanece incerto é se o partido terá a capacidade de ouvir o alerta de uma de suas figuras mais históricas antes de enfrentar novos ciclos eleitorais decisivos. Frank não oferece uma fórmula mágica, mas aponta para a necessidade de um realinhamento estratégico que coloque a realidade do eleitor acima da ideologia do ativista. A questão que paira é se o espaço para o pragmatismo ainda existe em uma era de polarização extrema e redes sociais que recompensam o radicalismo.

Observar o comportamento dos próximos candidatos democratas será fundamental. Se a tendência for a busca por posições mais seguras e amplas, o diagnóstico de Frank terá sido o guia. Caso contrário, o partido corre o risco de se isolar ainda mais em uma bolha intelectual, perdendo o contato com as preocupações que movem o eleitorado americano nas urnas. O tempo, como o próprio Frank reconhece, é um recurso escasso, tanto para a política quanto para a vida.

O legado de Frank não será definido apenas por suas conquistas legislativas, mas pela disposição de, em seu momento final, tentar salvar o partido que ajudou a moldar de sua própria tendência ao autoisolamento. Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas