A expectativa anual pela reabertura do mercado de IPOs tornou-se um ritual repetitivo no ecossistema de tecnologia. A cada novo ciclo, analistas apontam para grandes nomes — como SpaceX, OpenAI e Anthropic — como evidências de que a janela finalmente se abriu. Contudo, essa percepção ignora uma mudança estrutural profunda: o mercado de listagens públicas não está fechado por questões conjunturais, ele está encolhendo de forma consistente há três décadas.

Segundo análise de Shawn Bercuson, fundador da Earlyasset, o limiar para uma empresa acessar a bolsa subiu drasticamente. Enquanto em 1996 existiam mais de 8.000 companhias listadas nas bolsas americanas, hoje esse número é inferior a 4.000, mesmo com uma economia que triplicou de tamanho. O IPO deixou de ser o destino natural de empresas maduras para se tornar um evento restrito a gigantes com escalas que, no passado, seriam consideradas exceções de mercado.

A elevação do sarrafo estrutural

A ideia de que a escassez de IPOs é uma consequência direta de juros altos ou volatilidade macroeconômica é insuficiente para explicar o cenário atual. Historicamente, o critério de receita necessário para uma abertura de capital aumentou de forma contínua. Em 1980, o valor mediano de receita para uma empresa ir a público era de aproximadamente 64 milhões de dólares em valores corrigidos. Atualmente, o perfil do candidato típico a IPO possui um faturamento que, décadas atrás, já o posicionaria como uma empresa de médio porte consolidada.

Esse deslocamento forçado mantém empresas privadas por períodos muito mais longos, eliminando as janelas de liquidez que investidores e colaboradores esperavam. O resultado é que o mercado público está se tornando um clube exclusivo. Milhares de empresas com receitas entre 50 e 200 milhões de dólares, que antes formariam a espinha dorsal das bolsas, agora permanecem privadas sem uma via clara de saída, gerando um represamento de capital que desafia a lógica de retorno dos fundos de venture capital.

O impacto na cadeia de valor

O custo desse represamento é sentido por funcionários e gestores de fundos. Colaboradores que aceitaram remunerações baseadas em equity veem suas participações presas em ativos ilíquidos, dificultando o planejamento financeiro de longo prazo. No mercado privado, a falta de padronização transforma a venda de ações em um processo lento, opaco e dependente de contatos pessoais, muitas vezes levando meses para ser concluído.

Para os investidores, a situação é igualmente complexa. Com a métrica de retorno sobre capital investido (DPI) em mínimas históricas, gestores de fundos de venture capital enfrentam dificuldades para levantar novos recursos. A concentração de liquidez em um grupo seleto de 15 empresas, que concentram cerca de 90% do volume de negociação secundária segundo dados da Caplight, deixa a vasta maioria das empresas de médio porte sem um mercado de saída funcional.

Paralelos históricos e o mercado de balcão

A situação atual guarda semelhanças com o mercado de ações dos Estados Unidos no final do século XIX. Naquela época, a rigidez da Bolsa de Valores de Nova York forçou corretores a negociar ações não listadas diretamente nas calçadas da Broad Street. Esse ambiente, embora caótico e informal, atendia a uma necessidade econômica real. Com o tempo, essa estrutura evoluiu, estabeleceu regras e deu origem ao que hoje conhecemos como a American Stock Exchange.

O mercado secundário privado vive hoje uma fase semelhante de fragmentação. A existência de corretores informais e preços inconsistentes não reflete uma falha das empresas, mas uma deficiência da infraestrutura de mercado. A demanda por liquidez é real e crescente, e a história sugere que mercados que atendem a necessidades econômicas fundamentais tendem a se organizar, profissionalizar e ganhar escala, superando o estágio atual de informalidade.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é o tempo necessário para que essa infraestrutura de mercado secundário alcance a maturidade necessária. Enquanto investidores e funcionários esperam por uma solução, eles continuam absorvendo os custos da iliquidez. A transição para um modelo mais eficiente não é uma questão de se, mas de quando, à medida que a pressão por retornos força a inovação nos mecanismos de troca.

O mercado de capitais está em uma encruzilhada. A consolidação de plataformas de negociação secundária deve ser o próximo passo lógico para acomodar as empresas que não se encaixam no novo perfil exigido pelas bolsas. Observar o desenvolvimento dessas ferramentas será essencial para entender como o ecossistema de inovação financiará seu futuro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Crunchbase News