A ambição de transformar o arquipélago das Canárias em um polo de energia renovável esbarra em desafios concretos de planejamento e execução, como demonstra o projeto da maior bateria hidrelétrica da região. Iniciada em 2022, a obra visa utilizar a represa de Chira como parte de um sistema de bombeamento para armazenar energia em excesso — e já acumula atrasos e problemas estruturais que comprometem sua funcionalidade.
Planejamento deficiente em projeto estratégico
A iniciativa, conduzida pela Red Eléctrica, propõe a construção de uma central de bombeamento entre as represas de Chira e Soria, em Gran Canaria. A ideia central é bombear água de Soria para Chira quando houver excedente de energia renovável, convertendo o sistema em uma bateria de aproximadamente 3,5 GWh. No entanto, a concepção original da represa de Chira, construída entre 1941 e 1964, focava unicamente na retenção de água para a agricultura, sem prever a necessidade de esvaziamento rápido.
Essa lacuna de concepção tornou-se um gargalo crítico. Sem um dreno de fundo adequado, a liberação da água armazenada em Chira — que na época do início das obras se encontrava com 51% de sua capacidade — levaria de seis a oito meses. Para que a represa funcione como uma bateria hidrelétrica eficiente, esse tempo precisaria ser reduzido para poucas semanas, o que exige um sistema de drenagem robusto que não estava previsto no projeto original.
Consequências da falta de infraestrutura adequada
Chuvas intensas registradas em março de 2022 exacerbaram os problemas. Segundo denúncias da Plataforma Cidadã Salvar Chira-Soria, parte das obras em andamento foi inundada, evidenciando as fragilidades do projeto desde sua concepção. A situação levantou questionamentos sobre a gestão de projetos de infraestrutura de grande porte e a integração de novas tecnologias em estruturas preexistentes.
A ausência ou inadequação do dreno de fundo em Chira demonstra um planejamento inicial que não contemplou todas as exigências operacionais de um sistema de armazenamento de energia renovável — um erro custoso em obras dessa escala.
Implicações para o futuro energético das ilhas
O projeto enfrenta a perspectiva de novos atrasos e custos adicionais para corrigir as falhas de planejamento identificadas. A situação em Chira serve como alerta para a importância de um planejamento integrado e detalhado em projetos de infraestrutura crítica, especialmente aqueles que visam a transição energética.
A capacidade de Gran Canaria de gerenciar seus recursos hídricos e energéticos de forma eficiente é crucial, e falhas como essa podem comprometer não apenas os objetivos de sustentabilidade, mas também a segurança energética da ilha.
Perguntas em aberto e lições para o setor
Os problemas enfrentados pela construção da bateria hidrelétrica de Chira levantam questões importantes sobre a diligência no planejamento de grandes obras de infraestrutura. A lição mais evidente é a necessidade de uma análise de viabilidade que contemple todas as funcionalidades exigidas pela nova tecnologia, mesmo que isso signifique adaptar ou modificar estruturas com décadas de existência.
O caso exige uma reavaliação completa do projeto e a busca por soluções que garantam a segurança e a eficiência da futura bateria — evitando que o arquipélago repita erros semelhantes em iniciativas futuras de energia renovável.
O projeto da bateria hidrelétrica das Canárias, que prometia ser um marco na geração de energia limpa, encontrou-se em impasse logo em seus estágios iniciais, forçando uma reflexão sobre os desafios de modernizar infraestruturas antigas para atender às demandas energéticas do presente e do futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





