A exposição "What Still Holds", em cartaz no Lower East Side durante a NYC Design Week, apresenta uma série de luminárias criadas pelo designer Becharan Maalouf. Instalada em uma galeria adjacente à flagship da varejista Komune, a mostra utiliza padrões geométricos inspirados nas grades de proteção das janelas da casa de sua família em Kfertay, no Líbano, para questionar a relação entre identidade, memória e o cenário de instabilidade no país de origem do artista.

O trabalho de Maalouf, que cresceu nos Estados Unidos, é uma tentativa de mediar a distância geográfica e cultural com suas raízes. Segundo a reportagem da Dezeen, a coleção inclui três luminárias principais, um espelho produzido em 2025 e um tríptico que incorpora fragmentos de notas de lira libanesa, simbolizando tanto a estética local quanto a recente crise econômica que desvalorizou a moeda nacional.

A estética da memória e o uso de materiais

As peças de Maalouf destacam-se pela fusão entre o rigor tecnológico do corte a laser e a intervenção manual. As luminárias são montadas sobre blocos de madeira recuperados de edifícios do próprio Lower East Side, estabelecendo um diálogo físico entre a história da vizinhança nova-iorquina e a herança libanesa do designer. O uso de ligas de aço inoxidável magnético permite a adição de pequenos elementos decorativos, como moscas metálicas, que o artista utiliza para conferir uma dimensão interativa e orgânica às obras.

O processo de fabricação também reflete uma busca por tangibilidade. Maalouf, incentivado por Brandon Fogerty, diretor criativo da Komune, experimentou a dobra manual de abas metálicas ao redor das luminárias. Esse esforço é descrito pelo autor como uma tentativa de inserir sua própria mão no processo produtivo, contrapondo a precisão fria das máquinas CNC com a imperfeição humana, um elemento que ele considera essencial para a autenticidade das peças.

O design como resistência cultural

Para Maalouf, a obra não deve ser lida apenas como um reflexo da zona de conflito no Líbano. Ele enfatiza que, apesar das tensões geopolíticas, a vida cotidiana, a beleza e a natureza permanecem resilientes. O designer busca capturar a perenidade dos elementos arquitetônicos e naturais, como as janelas ornamentadas e os pomares que ainda florescem em Kfertay, oferecendo uma perspectiva de continuidade em contraste com a narrativa de destruição frequentemente associada ao país na mídia ocidental.

Essa abordagem editorial sugere que o design pode servir como uma ferramenta de preservação cultural. Ao transformar grades de janelas — um símbolo de proteção e limite — em objetos de iluminação, Maalouf recontextualiza o objeto utilitário em uma peça de contemplação, permitindo que o público nova-iorquino acesse uma narrativa libanesa focada na persistência da beleza e do cotidiano, em vez de apenas no trauma.

Implicações para o ecossistema de design local

A ocupação temporária do espaço de galeria pela Komune, que anteriormente funcionava como escritório, reflete uma tendência crescente de flexibilização de espaços comerciais durante semanas de design. Esse movimento, que transforma ambientes de varejo em galerias experimentais, aponta para uma estratégia de engajamento que vai além da venda direta. A possibilidade de converter o local em uma oficina de costura após o término da exposição sinaliza uma busca por multifuncionalidade no varejo físico.

O mercado de design em Nova York, por sua vez, enfrenta transformações significativas, especialmente com a mudança das feiras comerciais para o segundo semestre. Nesse cenário, exposições como a de Maalouf, que se conectam com a comunidade local e utilizam materiais reciclados, ganham relevância ao oferecer uma alternativa mais intimista e autoral às grandes feiras globais, promovendo uma conexão mais profunda entre o designer, a galeria e o consumidor final.

Perspectivas e incertezas

O futuro do espaço ocupado pela Komune permanece em aberto, sendo um reflexo da própria natureza efêmera das instalações durante a NYC Design Week. A transição de um escritório para um ambiente de arte e, potencialmente, para um ateliê de costura, levanta questões sobre como o varejo de moda pode integrar a produção artesanal no ponto de venda, criando uma experiência de marca que valoriza a procedência e o processo criativo.

A longo prazo, resta observar como o trabalho de Maalouf evoluirá ao equilibrar a precisão industrial do metal com a sensibilidade dos materiais orgânicos. A recepção dessa mostra, em um momento em que a valorização de narrativas pessoais e identitárias é central para o design contemporâneo, sugere que o valor de mercado das peças continuará atrelado à carga histórica que cada objeto carrega. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen