A ascensão da inteligência artificial (IA) tem sido acompanhada por um coro crescente de preocupações, que vão desde o temor de que a tecnologia possa erradicar empregos em massa até previsões distópicas de que ela possa representar uma ameaça existencial à humanidade. No entanto, uma voz proeminente de Hollywood oferece uma perspectiva contrária: Ben Affleck, o aclamado ator, roteirista e empreendedor de tecnologia. Segundo Affleck, grande parte dessa ansiedade em torno da IA é, na verdade, “propaganda”. Ele sugere que, uma vez que as pessoas interajam com a tecnologia e compreendam seu potencial, percebem que ela pode ser uma ferramenta poderosa para o bem e para o avanço.
Em declarações recentes, Affleck descreveu a IA não como um adversário alienígena prestes a nos dominar ou a dizimar empregos de colarinho branco, mas sim como uma evolução natural da computação, um conjunto de ferramentas tecnológicas que pode ser utilizado para criar e inovar. Essa visão é informada por sua própria experiência. Em 2022, Affleck fundou a InterPositive, uma startup focada em IA para a indústria cinematográfica, que foi adquirida pela Netflix por cerca de US$ 587 milhões. Essa transação sublinha seu compromisso e crença no potencial comercial e criativo da IA.
O Medo da IA como Propaganda
Affleck argumenta que a percepção pública da IA é frequentemente moldada por narrativas alarmistas que a retratam como uma força destrutiva. Ele acredita que essa imagem nebulosa e assustadora se dissipa quando as pessoas experimentam a IA de forma prática. Ao invés de uma ameaça, ela se revela como um avanço tecnológico, semelhante a outras revoluções computacionais que transformaram a maneira como trabalhamos e vivemos. A sua experiência com a InterPositive e a venda para a Netflix exemplificam essa visão de que a IA pode ser um motor de negócios e inovação, e não apenas uma fonte de disrupção.
Embora Affleck não detalhe o uso específico da IA em seu novo filme, "Animals", ele expressa uma certa relutância em revelar os detalhes. Ele teme que isso possa quebrar a "ilusão da realidade" que é essencial para a arte cinematográfica, comparando-a a um mágico que revela seus truques antes de uma apresentação. Essa hesitação, no entanto, não diminui sua crença no potencial da IA como ferramenta de aprimoramento e não substituição.
IA e o Futuro do Trabalho em Hollywood
Contrariando a narrativa de que a IA levará à eliminação de empregos, Affleck observa que, na indústria cinematográfica, a tecnologia está sendo utilizada de forma a aumentar a força de trabalho, em vez de reduzi-la. Ele afirma que os mesmos projetos de cinema empregam o mesmo número de pessoas, e em alguns casos, "tecnicamente mais pessoas estão sendo empregadas". Essa perspectiva contrasta fortemente com a realidade do setor de produção cinematográfica e de vídeo em geral. Dados do Departamento do Trabalho dos EUA indicam que a indústria perdeu 49.000 empregos entre 2016 e 2026, uma queda de 21%. A visão de Affleck sugere que a IA, quando aplicada de forma estratégica, pode ser um catalisador para a criação de novas funções e a expansão de equipes, em vez de uma ferramenta de corte de custos indiscriminado.
No entanto, Affleck não é cego aos potenciais perigos da IA. Ele expressa preocupação com o impacto da tecnologia na educação, especialmente em relação à "aprendizagem de impotência" e ao uso irresponsável. A facilidade com que a IA pode gerar conteúdo e responder a perguntas pode levar a uma dependência excessiva, diminuindo a capacidade crítica e a criatividade dos estudantes. Ele cita o aumento de 30% nas notas "A" concedidas em faculdades nos últimos três anos como um sinal preocupante dessa tendência.
Outras Vozes em Hollywood
Affleck não está sozinho em sua defesa da IA em Hollywood. Outras figuras proeminentes da indústria também estão explorando e abraçando a tecnologia, embora com nuances em suas abordagens. James Cameron, diretor de "O Exterminador do Futuro", assumiu um papel formal no desenvolvimento de IA ao ingressar no conselho da Stability AI. A atriz Natasha Lyonne, cofundadora da Asteria Film Co., defende o desenvolvimento de IA generativa amigável aos direitos autorais e enfatiza a importância de proteger os direitos dos artistas, argumentando que Hollywood deve moldar o desenvolvimento da IA, em vez de apenas resistir a ele.
Matthew McConaughey também ecoou a ideia de que a revolução da IA é inegável e já está em curso. Ele aconselha a não negar a tecnologia, mas sim a se envolver ativamente em sua moldagem. Para se proteger contra o uso indevido de sua imagem, McConaughey registrou uma série de marcas que cobrem sua imagem e expressões características, dificultando que empresas de IA o simulem sem permissão. A mensagem geral de Hollywood, refletida por essas personalidades, é que a IA é uma realidade que exige adaptação e envolvimento estratégico, e não simples rejeição.
Perguntas em Aberto
Apesar do otimismo de figuras como Ben Affleck, o debate sobre o impacto da IA no mercado de trabalho, especialmente em setores criativos, está longe de ser resolvido. A tensão entre usar a IA como uma ferramenta de aprimoramento e cair na armadilha da dependência excessiva permanece como um desafio central. Questões sobre como garantir que a IA sirva como um complemento, e não um substituto, para a criatividade humana, e como proteger os direitos autorais e a propriedade intelectual em um mundo de conteúdo gerado por IA, continuam a exigir respostas.
Será que a indústria cinematográfica conseguirá manter a promessa de que a IA gerará mais empregos, ou o declínio observado em outros setores acabará por se manifestar também aqui? Como os reguladores e os próprios profissionais da indústria encontrarão um equilíbrio entre inovação e proteção, garantindo que o avanço tecnológico beneficie a todos, sem comprometer a essência da criação humana? Estas são as questões que definirão o futuro da IA em Hollywood e em outros setores criativos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





