A gestão de recursos hídricos em Benidorm, na Espanha, tornou-se um estudo de caso global sobre resiliência urbana. Em uma região marcada por estresse hídrico estrutural, a cidade enfrenta o desafio de triplicar sua população durante a alta temporada de verão, mantendo o abastecimento de água potável e o tratamento de esgoto sem falhas. A operação, gerida pela Veolia, demonstra que a segurança sanitária em destinos turísticos de massa não é apenas uma necessidade logística, mas um requisito básico para a viabilidade econômica do setor hoteleiro.
Segundo reportagem do Xataka, a estratégia de Benidorm baseia-se em um rigoroso controle de qualidade e na digitalização da rede. Em um cenário onde a contaminação por nitratos ameaça acuíferos em diversas partes da Espanha, a cidade blindou seu sistema através da Estación de Tratamiento de Agua Potable (ETAP) e da Estación Depuradora de Aguas Residuales (EDAR), transformando o ciclo da água em um processo altamente técnico e monitorado.
Engenharia sob pressão extrema
A infraestrutura de Benidorm não lida apenas com a variação sazonal de demanda, mas com a imprevisibilidade climática. Episódios de chuvas torrenciais, comuns na região, elevam a turbidez da água captada nos reservatórios, exigindo ajustes em tempo real nos processos de tratamento. A planta opera sob a premissa de que a responsabilidade da concessionária não termina na potabilização, mas no momento em que a água chega ao ponto de consumo, garantindo padrões sanitários que sustentam a confiança de milhões de visitantes.
Historicamente, a gestão de recursos hídricos em zonas de alto fluxo turístico focava apenas na expansão da oferta. Benidorm, contudo, deslocou esse foco para a eficiência. Com uma rede digitalizada que inclui sensores integrados e algoritmos de detecção de fugas, a cidade conseguiu reduzir as perdas na rede de distribuição para níveis próximos a 5%, um índice de eficiência notável para sistemas urbanos de grande porte.
O mecanismo do reuso
A filosofia por trás do sistema de Benidorm é a da economia circular. O esgoto não é tratado como um resíduo a ser descartado, mas como um recurso estratégico. Atualmente, 35% da água que passa pela estação de depuração é reutilizada, principalmente para fins de irrigação agrícola na região. Esse modelo reduz a pressão sobre os reservatórios de água doce, criando um ciclo de consumo mais sustentável.
Além da gestão de fluxo, a eficiência energética é uma prioridade. As estações de tratamento são grandes consumidoras de eletricidade, e a operação em Benidorm busca mitigar esse impacto através da geração própria de energia. Utilizando o biogás e os subprodutos do processo de tratamento, como os fangos, a planta trabalha para diminuir sua pegada ambiental, tornando-se mais autossuficiente e alinhada com as metas de sustentabilidade europeias.
Implicações para o turismo
A qualidade da água é, em última análise, um ativo econômico. Para a rede hoteleira de Benidorm, a garantia de um fornecimento ininterrupto e seguro é o que mantém a competitividade do destino no mercado internacional. Qualquer falha sanitária ou desabastecimento teria consequências imediatas na reputação e na ocupação, tornando a engenharia hídrica invisível um pilar invisível, porém essencial, do PIB local.
Para outras cidades brasileiras com vocação turística e que enfrentam desafios sazonais de infraestrutura, o modelo de Benidorm oferece paralelos importantes. A transição de uma gestão tradicional para um ecossistema digitalizado, capaz de prever demandas e otimizar o uso de recursos regenerados, aponta um caminho para conciliar o crescimento do turismo com a preservação dos recursos naturais locais.
Desafios de regeneração
O futuro da gestão hídrica em Benidorm aponta para a expansão do Plan Director de Agua Regenerada. O objetivo é aumentar significativamente o volume de água regenerada disponível para novos usos, consolidando a cidade como um exemplo de adaptação às mudanças climáticas. Resta observar como a tecnologia continuará a evoluir para suportar a crescente pressão demográfica e o aumento das temperaturas médias.
A capacidade de manter esse equilíbrio dependerá da manutenção contínua e dos investimentos em infraestrutura digital, elementos que frequentemente ficam fora do debate público até que uma crise se instale. O sucesso de Benidorm serve como um lembrete de que a segurança dos serviços básicos é, essencialmente, uma obra de engenharia constante.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





