Caminhar pelo terreno do Parque Global, na zona sul de São Paulo, é um exercício de contraste. Entre o ruído constante da Marginal Pinheiros e a imponência das torres em ascensão, surge uma tentativa deliberada de reescrever a relação entre o concreto e a cultura. A Benx, incorporadora do grupo Bueno Netto, decidiu que o luxo contemporâneo não pode mais se sustentar apenas em mármore e localização privilegiada. Ao integrar galerias de arte, exposições permanentes e programas de formação de talentos diretamente na concepção de seus projetos, a empresa sinaliza uma mudança de paradigma no mercado imobiliário de alto padrão.

A arte como ativo imobiliário

A estratégia da Benx reflete uma sofisticação na demanda por empreendimentos de uso misto. Adalberto Bueno Netto, fundador do grupo, defende que projetos de grande porte hoje precisam entregar mais do que infraestrutura; eles devem oferecer identidade e uma conexão real com a malha urbana. A arte, neste contexto, deixa de ser um acessório decorativo para se tornar o fio condutor da experiência do morador. Ao convidar nomes como Ângelo Venosa e Laura Vinci para compor o ambiente residencial, a incorporadora não apenas eleva o valor estético do ativo, mas cria uma narrativa de exclusividade difícil de replicar apenas com acabamentos de luxo.

O mecanismo de curadoria

O funcionamento dessa aposta vai além da simples aquisição de obras. Sob a liderança de Dinda Bueno Netto e Kátia d’Avillez, o programa Parque Global Cultural opera com a lógica de uma instituição cultural independente. Ao incluir uma galeria aberta ao público e iniciativas de profissionalização para novos talentos, como o muralista SENK, a empresa cria um ecossistema que transborda os limites do condomínio. É uma forma de 'cidade dentro da cidade' que utiliza a cultura como ferramenta de mitigação da frieza dos grandes complexos corporativos e residenciais.

Tensões do mercado de alto padrão

Para o setor, o movimento da Benx ilustra a busca por resiliência em um mercado saturado de ofertas premium. Com um VGV de R$ 2,2 bilhões registrado no último ano, a empresa aposta que a demanda por experiências integradas — que unem saúde, hospitalidade e arte — é a chave para a longevidade dos projetos. No entanto, o desafio permanece: como garantir que a curadoria cultural não seja percebida apenas como uma estratégia de marketing, mas como um compromisso genuíno com o entorno e com a memória urbana de São Paulo?

O horizonte da ocupação urbana

O que resta saber é se o modelo de 'cidade dentro da cidade' conseguirá, de fato, dialogar com a complexa realidade da capital paulista a longo prazo. Projetos como o 280 Art Boulevard e a integração com a futura Linha 17-Ouro do Metrô sugerem que a infraestrutura física e a intervenção artística caminharão cada vez mais juntas. A dúvida que persiste é como a cidade absorverá essas ilhas de cultura e se, no futuro, veremos o surgimento de um novo padrão de urbanismo, onde a arte será o critério definitivo de valorização imobiliária.

À medida que o concreto se consolida, a pergunta que fica para o mercado é simples: a arte será capaz de humanizar a escala monumental dos novos empreendimentos, ou ela se tornará apenas mais um elemento de fachada em um mercado que busca, desesperadamente, por alma?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea