Astrônomos que utilizam o telescópio ALMA, no Chile, capturaram algumas das imagens mais detalhadas já feitas de Betelgeuse, a proeminente supergigante vermelha na constelação de Órion. As observações revelaram um fenômeno que intriga a comunidade científica: a presença de duas grandes “manchas quentes” em sua superfície.
O ponto central do enigma não é a existência dessas áreas mais quentes, mas sua longevidade. Ao comparar os novos dados com observações de quase uma década atrás, os pesquisadores notaram que as estruturas permaneceram praticamente inalteradas por sete anos. A descoberta, aceita para publicação na revista Astronomy & Astrophysics, desafia frontalmente os modelos vigentes sobre a dinâmica das atmosferas estelares, que previam uma dissipação muito mais rápida para tais fenômenos.
A anomalia da convecção
A superfície de uma supergigante vermelha como Betelgeuse é um ambiente turbulento, dominado por gigantescas células de convecção que transportam calor de seu interior. Segundo a teoria, qualquer irregularidade térmica, como um ponto mais quente, deveria ser efêmera, dissolvendo-se rapidamente no fluxo caótico de plasma. A estabilidade observada por tanto tempo sugere que um mecanismo desconhecido ou subestimado está em jogo.
Essa persistência força uma revisão dos modelos teóricos. A leitura aqui é que a física que governa a superfície dessas estrelas massivas é mais complexa do que se supunha. O que os astrônomos estão vendo não é apenas uma curiosidade, mas uma anomalia que pode ser a chave para entender melhor os estágios finais da vida de estrelas massivas, incluindo a própria Betelgeuse, uma conhecida candidata a explodir como supernova.
Uma companheira em cena?
Para explicar a estabilidade incomum das manchas quentes, os cientistas propõem uma hipótese externa: a influência gravitacional de uma estrela companheira, conhecida como Betelgeuse B ou Siwarha. Embora muito menor e mais tênue, sua órbita poderia estar afetando o fluxo de gases na atmosfera da estrela principal, criando pontos de ancoragem para o calor e estabilizando as estruturas convectivas.
Se confirmada, essa interação transformaria o problema de um mistério de física estelar para um de dinâmica de sistemas binários. O movimento sugere que, para decifrar os segredos internos de Betelgeuse, talvez seja preciso olhar para sua vizinhança imediata. A estrela, que já fascina por seu potencial de se tornar um espetáculo celeste visível da Terra, ganha agora uma nova camada de complexidade.
O estudo de Betelgeuse, portanto, transcende a simples observação de um astro distante. Cada nova imagem e cada anomalia descoberta nos aproxima de um entendimento mais profundo sobre a evolução estelar e os eventos cósmicos que moldam o universo, um quebra-cabeça que se monta a 650 anos-luz de distância.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Canaltech





