O Beyond Fest 2026, que se consolida como o festival de gênero com maior público nos Estados Unidos, inicia sua décima quarta edição em Los Angeles. A programação deste ano, composta por oitenta e uma longas-metragens, abre com a exibição de "Primetime", dirigido por Lance Oppenheim e estrelado por Robert Pattinson. O filme mergulha na figura de Chris Hansen, o correspondente do "Dateline NBC" que comandou o controverso programa "To Catch a Predator".
O festival, uma parceria com a MUBI e a American Cinematheque, se destaca não apenas pelo número de filmes, mas pela sua capacidade de atrair um público engajado com o cinema de gênero. "Primetime" aborda a complexa figura de Hansen e o programa que expunha predadores sexuais, levantando questões sobre entretenimento, justiça e a linha tênue entre voyeurismo e serviço público. A produção, que estreou com a presença de Oppenheim e Pattinson para um bate-papo com a plateia, já gera burburinho sobre possíveis indicações ao Oscar para seu protagonista.
Análise de 'Primetime' e o Contexto da Vigilância
"Primetime" não é a primeira obra a explorar o fenômeno "To Catch a Predator". O documentário "Predators", de David Osit, já havia sido aclamado pela crítica, incluindo pelo The New York Times e The Guardian, por sua abordagem crítica e pela forma como apresentava Hansen como uma figura pouco simpática. A questão que surge é a necessidade de uma dramatização quando a realidade já foi tão bem documentada. Oppenheim, no entanto, justifica sua obra através de duas vertentes: o elenco estelar e o contexto histórico.
Além de Pattinson, o filme conta com Merritt Wever, Skyler Gisondo, Alex Winter e Phoebe Bridgers. A crítica especializada, como Jessica Kiang da Variety, elogia as atuações extraordinárias que, apesar da abordagem "suja" e desconfortável do tema, prendem o espectador. Pattinson, em particular, é destacado por sua interpretação de um Hansen arrogante, viciado em fama e megalomaníaco, capturando não apenas os maneirismos físicos, mas a cadência vocal peculiar do apresentador.
O Legado do "Forever Wars Era"
A segunda justificativa para "Primetime" reside na contextualização histórica. O filme insere a narrativa em um período marcado por eventos globais significativos, como a queda do Iraque, a captura de Saddam Hussein e a caça a Osama bin Laden. Como aponta Bilge Ebiri da Vulture, as telas ao fundo de "Primetime" remetem à "Era dos Forever Wars", sugerindo que "To Catch a Predator" representou a confluência de militarização, vigilância, paranoia, celebridade e entretenimento. Oppenheim conecta o programa a uma forma de "justiça de fronteira" que ecoava o discurso de George W. Bush, um legado com o qual a sociedade ainda lida.
Outros Destaques do Festival
Além de "Primetime", o Beyond Fest 2026 apresenta outros filmes notáveis. "Your Mother Your Mother Your Mother", de Bassam Tariq, recém-saído do festival de Toronto, traz Mahershala Ali como um pai viúvo que luta para conciliar a vida familiar com seu trabalho como assassino de aluguel. O filme é descrito como uma obra sobre fé, luto, paternidade e violência, com uma energia que surpreende, especialmente considerando que surgiu após o fracasso de um projeto anterior de Tariq e Ali para a franquia "Blade".
O festival também exibe filmes que passaram pela programação "Midnight Madness" de Toronto, como o "curry western de artes marciais sangrento" "Half", de Samjad, e "River", de Joshua Giuliano, um slasher meditativo com um toque de arthouse. "The Spiral", de Paolo Strippoli, completa a lista de destaques, descrito como um conto "à la Twilight Zone" com quatro capítulos.
Implicações e o Futuro do Cinema de Gênero
O Beyond Fest consolida seu papel como um epicentro para o cinema de gênero, atraindo produções que desafiam convenções e exploram temas complexos sob a ótica de narrativas mais comerciais. A presença de nomes como Robert Pattinson e Mahershala Ali em filmes que abordam desde a vigilância midiática até dramas familiares com elementos de ação, sinaliza uma crescente sofisticação dentro do gênero. A curadoria do festival, que equilibra produções aguardadas com descobertas independentes, reforça a ideia de que o cinema de gênero é um terreno fértil para experimentação e reflexão social.
A escolha de "Primetime" para abrir o festival, com sua abordagem crítica a um programa de TV de grande audiência e seu contexto histórico, sugere um movimento em direção a filmes que não apenas entretenham, mas também provoquem debate. O sucesso do festival em atrair um público expressivo para essas obras indica uma demanda crescente por narrativas que, embora ancoradas em tropos do gênero, ofereçam profundidade temática e análise social.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





