Em 1976, os Estados Unidos celebraram seu bicentenário com um projeto cultural sem precedentes, que se estendeu por todo o país, de grandes centros urbanos a pequenas cidades. A iniciativa, coordenada pelo governo federal através da American Revolution Bicentennial Commission e em colaboração com diversas agências culturais, foi mais do que uma simples comemoração histórica; foi um experimento em pluralismo e na definição do que significava ser americano. O livro "What Was America?: Art, Culture, and Politics in the Bicentennial Era", de Elise Armani e Katy Siegel, mergulha nesse evento, argumentando que a arte desempenhou um papel central na coesão nacional e na reflexão coletiva sobre o passado e o futuro do país.

O projeto do bicentenário envolveu a criação de uma vasta gama de manifestações artísticas e culturais: exposições em museus como o Smithsonian e o MoMA, instalações públicas, esculturas, filmes, documentários, e até mesmo intervenções em espaços cotidianos como parques e a pintura de hidrantes. A participação do governo federal foi crucial, fornecendo financiamento, diretrizes temáticas e apoio logístico. Essa liderança estatal, aliada à colaboração de instituições regionais, estados, organizações cívicas e filantrópicas, permitiu a realização de um evento que ofereceu aos cidadãos oportunidades inéditas de apreciar e debater a identidade americana. A arte, nesse contexto, não foi apenas um adorno, mas um veículo para o autoconhecimento e a convocação política.

O Papel do Estado na Promoção Cultural

A análise de Armani e Siegel destaca uma mudança metodológica na história da arte, afastando-se do foco tradicional em vanguardas e transgressões para enfatizar o papel do Estado na produção e disseminação cultural. Em contraste com a visão que privilegia o "upstart" e o "outsider", o livro demonstra como iniciativas públicas, como o design de selos postais, o financiamento de fotógrafos do National Park Service, ou o apoio a programas de artes públicas com verbas antes substanciais da National Endowment for the Arts (NEA), foram fundamentais para a coesão nacional. A arte cotidiana e as práticas estéticas locais, quando apoiadas por infraestruturas públicas, contribuíram para a formação de um senso de pertencimento e para a construção de um campo estético amplo, que permitia a expressão de diversas formas de significado e sensibilidade coletiva.

Essa abordagem, que o livro chama de "estética federada", posiciona o estudo em uma perspectiva intermediária: abaixo da censura explícita e acima das "memes" e "mentiras", focando na capacidade do Estado de prover um espaço estético aberto. A expertise combinada das autoras, uma curadora de arte e uma professora de história da arte, abrange uma variedade impressionante de mídias. A organização do livro, que foge de uma tese única em favor de um mosaico de aspectos da prática cultural do bicentenário, permite explorar dinâmicas entre o evento e a cultura dos anos 70, como meio ambiente, preservação e protesto. Cada capítulo frequentemente destaca uma obra representativa, como o logo gráfico do bicentenário de Bruce Blackburn ou a "Citizens Time Capsule" de Ant Farm, evidenciando como essas atividades culturais provocaram reflexões críticas e imaginativas sobre a América.

Arte como Símbolo de Pluralismo e Crítica

As estéticas do bicentenário incitaram a produção de significados localizados, coletivistas e até ideológicos sobre o experimento americano em pluralismo. As autoras observam corretamente que o momento de publicação do livro coincide com um "dramático estreitamento da possibilidade nacional sob a crescente pressão do capitalismo, a política de socialismo para corporações e austeridade para cidadãos, e, mais especificamente, o desfinanciamento da cultura, incluindo a arte, a ciência e a educação pública". Em contrapartida ao espírito do bicentenário, o "Freedom 250", um espetáculo que se aproveita de fundos públicos, consolida a cleptocracia e priva o povo do direito à cultura, à livre expressão e à curiosidade.

O livro explora a série "Bicentennial" (1970-75) do pintor Benny Andrews e a instalação de letreiros de neon que exibiam logos de restaurantes variados, representando a diversidade culinária americana. Destaca-se também "The Wake and Resurrection of the Bicentennial Negro" (1976) de Faith Ringgold, que utilizou a energia do quilting, especialmente o das mulheres negras, como um símbolo de cidadania heterogênea. O retalho, com suas histórias diversas costuradas em uma única superfície, tornou-se o símbolo dominante de uma nação fragmentada, mas unida. A obra de Ringgold é vista como uma rejeição ao "melting pot" assimilacionista, propondo em seu lugar um mosaico de identidades que retêm suas particularidades.

Implicações do Desfinanciamento e Legado

O livro aborda a tensão entre eventos oficiais do bicentenário, como exposições em museus de prestígio, e a resistência de coletivos como o Artists Meeting for Cultural Change (AMCC). O "anti-catalog" do AMCC expôs as "grotesqueries da beneficência corporativa e dos impulsionadores privados" que complementavam o projeto governamental, contestando a ideia de uma união nacional em estética, mesmo com o Estado como espinha dorsal. A experiência do bicentenário, vista retrospectivamente, representa um pico político, econômico e estético — uma anomalia em comparação com a atual "crise imobiliária da arte de belas-artes" e seu papel no "lavagem de dinheiro".

Armani e Siegel se abstêm de uma avaliação qualitativa profunda das obras, focando mais nas infraestruturas públicas que as viabilizaram. Isso levanta questões sobre o impacto duradouro dos projetos do bicentenário: Onde essas obras estão agora? Elas mudaram a trajetória de artistas? Que princípios estéticos emergiram desse estudo e como os historiadores da arte podem promovê-los hoje? A fotografia e obras "públicas" como murais, salientes no livro, sugerem que formas espaciais, especialmente locais, podem auxiliar laços sociais. O livro sugere que os modos "não refinados" podem ter mais potencial político do que a arte de belas-artes, dada a sua associação com o mercado financeiro. A pergunta que permanece é: qual será o papel da arte em uma nova fundação dos EUA, com um novo papel do Estado?

Perguntas em Aberto e o Futuro da Cultura

O bicentenário, com sua intenção de fomentar a criatividade cotidiana e o acesso à arte e cultura como parte da "boa vida" proporcionada pela abundância nacional, contrasta fortemente com o cenário atual. A celebração do Semiquinquetenário, descrita como "rapaz quanto é barata", é marcada pela degradação cultural, desde o declínio de universidades até a imposição de IA e a repressão à livre expressão. O regime atual está sistematicamente revogando o direito à cultura, demolindo universidades, atacando a imprensa e segregando o espaço público. Em meio a essa estagnação cultural, onde encontrar arte americana que não apenas evoque, mas capacite a boa vida, que promova o maioritarismo contra autoritários e floresça a liberdade contra o fascismo?

"What Was America?" ilustra vividamente o quanto o Estado — agora desmantelado — e a cultura — agora desfinanciada — outrora comissionaram o "tecido conectivo" da nação. Com esse tecido fino e atualmente rasgado, será preciso mais do que arte para a reparação e reconstrução. Contudo, grandes visões e formas galvanizantes seriam um bom começo. A ideia de América, que um dia foi uma força motriz, precisa ser reinventada, e é papel da arte propor novas concepções. A desintegração cívica observada hoje é um reflexo direto do desmonte das políticas culturais que, no passado, foram capazes de unir uma nação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews