A luz dourada da tarde veneziana refletia nas águas do canal, mas o ambiente nas proximidades da Bienal de Veneza carregava uma densidade distinta da habitual celebração artística. Sob a sombra de iates de luxo ancorados, milhares de manifestantes se reuniram em uma marcha que, mais do que um protesto, assemelhava-se a uma vigília coletiva. O ar, frequentemente saturado pelo entusiasmo da vanguarda, estava agora preenchido por cânticos e por faixas que exigiam o encerramento do pavilhão de Israel. A Art Not Genocide Alliance (ANGA), coletivo que orquestrou a mobilização, transformou a abertura do evento em um exercício de resistência, questionando a viabilidade de uma vitrine cultural internacional enquanto o conflito em Gaza persiste.

Segundo a ARTnews, o impacto foi imediato: ao longo de um único dia, diversos pavilhões nacionais — incluindo França, Grã-Bretanha, Suíça e Portugal — optaram por fechar suas portas, de forma total ou parcial, em solidariedade à causa palestina. Não se tratava apenas de uma ausência física, mas de uma recusa deliberada em manter a fachada de normalidade que a Bienal costuma demandar de seus participantes. O silêncio programado funcionou como um lembrete incômodo para visitantes e organizadores: a arte, frequentemente apresentada como autônoma, é indissociável das estruturas de poder e das tragédias que moldam o mundo contemporâneo.

A política do espaço e o peso da história

Fundada em 1895, a Bienal de Veneza sempre espelhou tensões geopolíticas, funcionando como uma espécie de Olimpíada da cultura onde nações projetam suas identidades. A estrutura de pavilhões nacionais, herdeira de uma visão de estados-nação bem definidos, torna-se terreno fértil para conflitos quando a realidade política externa colide com a diplomacia cultural. Boicotes e manifestações já marcaram outras edições, mas a escala atual — com adesões que, de acordo com organizadores e comunicados de greve, chegaram a envolver perto de duas dezenas de pavilhões — sinaliza uma mudança na forma como trabalhadores da cultura percebem suas responsabilidades éticas.

O argumento central dos manifestantes, articulado pela ANGA, é que a neutralidade institucional é uma ilusão que, na prática, favorece o status quo. Para muitos artistas e curadores signatários, continuar com as atividades como se nada estivesse acontecendo não é apenas omissão, mas uma forma de cumplicidade silenciosa. O debate não é novo, mas ganhou contornos inéditos pela velocidade de circulação de informações sobre a crise humanitária e pela pressão das redes sociais, que forçam instituições culturais a se posicionarem sob pena de perder relevância junto a uma geração mais engajada.

Mecanismos de pressão e a precarização do setor

A greve na Bienal expõe quem sustenta o ecossistema artístico. A mobilização foi feita em parceria com organizações como a Sale Docks e a Biennalocene, grupos que atuam na base por melhores condições de trabalho e contra a mercantilização excessiva do setor. Há uma conexão direta entre a precarização dos trabalhadores da cultura e a crítica à priorização de gastos militares em detrimento do bem público. Ao fechar um pavilhão, artistas e equipes não protestam apenas contra uma nação específica, mas desafiam a própria lógica da Bienal como produto de consumo cultural de elite.

Essa tensão é alimentada pelo sentimento de que instituições culturais ficaram reféns de burocracias que privilegiam a continuidade dos negócios em vez da integridade ética. Entre os signatários listados pela ANGA há nomes de peso como Brian Eno e Alfredo Jaar, o que confere maior visibilidade ao manifesto. Ao mesmo tempo, o uso de referências literárias no material de comunicação do protesto demonstra uma sofisticação que dialoga com o público da Bienal e subverte o próprio repertório cultural do evento.

Stakeholders diante do espelho

Para os reguladores e organizadores da Bienal, o desafio é monumental: como manter a missão de diplomacia cultural sem alienar uma parte crescente da comunidade artística? A pressão não é apenas política, mas também existencial. Se o evento se tornar um lugar onde a discordância é sufocada em prol da harmonia institucional, corre o risco de perder relevância como espaço de debate crítico. Por outro lado, o precedente aberto pelo fechamento de pavilhões cria um dilema para futuras edições, em que cada conflito global poderá exigir novo posicionamento institucional.

Concorrentes e instituições paralelas observam com atenção, pois a greve em Veneza pode servir de modelo para outras bienais, feiras de arte e festivais de cinema ao redor do mundo. A solidariedade entre artistas de diferentes pavilhões sugere que a rede de influência no mundo da arte é hoje mais horizontal e menos dependente das diretrizes dos estados-nação do que se imaginava. Para o ecossistema brasileiro, que frequentemente busca na Bienal de Veneza uma validação internacional, o episódio convida a refletir sobre como o país se posiciona diante de dilemas globais e qual o papel de sua representação institucional em cenários de crise.

Horizontes de incerteza

O que permanece incerto é o impacto de longo prazo dessa mobilização. A Bienal de Veneza eventualmente encerrará suas atividades, as luzes se apagarão e os iates partirão, mas a questão sobre o limite da neutralidade artística continuará em aberto. A pergunta central não é se a arte deve ser política, mas como sustenta sua relevância sem se tornar apenas um eco de agendas governamentais. O que observar nos próximos anos é se a articulação entre artistas, curadores e trabalhadores da cultura se transformará em uma estrutura permanente de monitoramento ético das instituições.

É possível que estejamos vendo o nascimento de um novo tipo de ativismo cultural, menos focado em declarações formais e mais voltado a ações disruptivas que interrompem o fluxo do capital e da exposição. A forma como as instituições responderem a essas demandas definirá se a Bienal continuará sendo um espaço de diálogo ou se se tornará um museu de si mesma, isolado das turbulências do tempo presente.

A Bienal segue seu curso, mas a sombra do que foi silenciado em nome da consciência política paira sobre os corredores de mármore e as águas dos canais. Talvez o maior legado desta edição não seja o que foi exibido, mas o vazio deixado pelos pavilhões que escolheram, ainda que por um dia, não participar do espetáculo. Com reportagem de ARTnews

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