A rotina de milhares de motoristas que cruzam as margens do rio Nervión, em Bilbao, é marcada pela silhueta imponente e pelo congestionamento crônico do viaduto de Rontegi. Com cerca de 175 mil veículos diários, o ponto tornou-se o principal gargalo viário da província de Bizkaia, forçando condutores a desvios de mais de 13 quilômetros para evitar o tráfego estagnado. Após três décadas de debates e projetos engavetados, a solução finalmente ganha concretude sob o leito fluvial, com o início das obras de um túnel subfluvial que promete reduzir um trajeto de quinze minutos para apenas quatro.
O desafio geológico sob o Nervión
A engenharia por trás do projeto exige precisão cirúrgica, com a necessidade de perfurar até 45 metros abaixo do leito do rio. A zona de Lamiako, composta por terrenos arenosos e sensíveis, representa o ponto de maior complexidade para as equipes técnicas. Para contornar a fragilidade do solo, a obra utilizará o método cut and cover, que consiste na escavação a partir da superfície seguida pela instalação de muros de contenção e cobertura, transformando a área em um túnel soterrado. O cronograma de trabalho prevê turnos ininterruptos de 24 horas dentro das galerias, enquanto as atividades a céu aberto serão restritas ao horário diurno para mitigar o impacto nas zonas residenciais próximas.
Mecanismos de execução e logística
A magnitude da obra reflete-se nos números apresentados pela Diputación Foral de Bizkaia: serão 1,8 milhão de metros cúbicos de terra removidos e mais de 21 mil toneladas de aço empregadas. A logística de retirada desse material mobilizará cerca de 170 caminhões diariamente, que transportarão os resíduos para o Porto de Bilbao, onde servirão como aterro para novos diques. O projeto, orçado em cerca de 540 milhões de euros, foi dividido em quatro grandes contratos, com a primeira fase já adjudicada a consórcios que incluem empresas como Ferrovial e Nortúnel, garantindo um fôlego de 60 meses para as etapas iniciais de construção.
Tensões sociais e sustentabilidade
Embora a autoridade local defenda o túnel como uma ferramenta vital para a redução de emissões, estimando uma economia anual de 6 mil toneladas de CO₂ e dois milhões de litros de combustível, a recepção pública é ambivalente. Plataformas de moradores e grupos ambientais questionam a priorização do transporte rodoviário em um cenário de transição climática, apontando a ausência de uma conexão ferroviária no desenho final. O que antes era visto como uma solução integrada de transporte público foi reduzido a uma via para veículos, gerando debates sobre o planejamento urbano a longo prazo na região.
O horizonte de 2032
O horizonte para a conclusão da obra está fixado em 2032, mas a eficácia da nova infraestrutura dependerá de como o fluxo de veículos se comportará diante da nova oferta de mobilidade. A incerteza sobre a demanda futura e a eficácia das medidas de mitigação ambiental permanecem como pontos de atenção para os próximos anos. Resta observar se o túnel conseguirá, de fato, remodelar a dinâmica metropolitana de Bilbao ou se o alívio temporário será apenas o prelúdio de novas demandas viárias. A transformação da paisagem urbana sob o Nervión é, acima de tudo, um teste de resiliência para a engenharia e para a própria visão de futuro da cidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





