A política de preços da Petrobras tem sido alvo de críticas por distorcer a competitividade do mercado de combustíveis no Brasil, especialmente em relação ao etanol. Tarcilo Rodrigues, diretor da Bioagência, uma empresa especializada na comercialização de commodities agrícolas com foco no setor sucroalcooleiro, manifestou sua insatisfação. Ele argumenta que a prática de preços da gasolina estatal, que não acompanha as referências internacionais, cria um ambiente desfavorável para a indústria privada de etanol, inibindo novos investimentos e dificultando o planejamento estratégico do setor.

Preços distorcidos e concorrência desleal

Rodrigues aponta que a diferença entre o preço da gasolina vendida pela Petrobras e o valor de mercado internacional pode superar R$ 1 por litro. Essa defasagem, segundo ele, é resultado da ingerência governamental sobre a estatal, que atravessa diferentes espectros políticos. A Petrobras, responsável por cerca de 85% da produção de gasolina no país através de suas refinarias, opera sob um modelo estatal que compete diretamente com a indústria privada de etanol. Essa configuração, na visão do executivo, coloca dois modelos econômicos distintos em disputa pelo consumidor, onde um deles opera com preços artificialmente baixos.

Impacto nos custos e na produção

O cenário se agrava com o encarecimento do petróleo no mercado internacional, que pressiona os custos de produção do próprio etanol, especialmente no que diz respeito a insumos como fertilizantes e diesel. Em um ambiente onde o petróleo ultrapassa os US$ 100 o barril, os produtores de etanol se veem obrigados a vender seu produto abaixo do custo, uma "distorção gigantesca", nas palavras de Rodrigues. A falta de alinhamento dos preços da gasolina com as referências globais limita a capacidade de competição do etanol, tornando o biocombustível menos atraente para o consumidor final, apesar de seu potencial de sustentabilidade.

Potencial de mercado e entraves logísticos

Apesar das críticas, a Bioagência enxerga um potencial significativo para a expansão do consumo de etanol no Brasil. O mercado de combustíveis do ciclo Otto movimenta cerca de 62 milhões de metros cúbicos em gasolina equivalente, sendo que uma parcela considerável ainda é importada. A substituição dessa gasolina por etanol hidratado representaria um potencial de aproximadamente 45 milhões de metros cúbicos, segundo estimativas da empresa. No entanto, esse crescimento esbarra na competitividade com a gasolina. Adicionalmente, a falta de previsibilidade sobre a continuidade de medidas de apoio ao setor, como reduções tributárias e subsídios, prejudica o planejamento de longo prazo dos produtores.

Incertezas e o futuro do etanol

Rodrigues também destacou a importância de uma estrutura legal favorável, citando a emenda constitucional e o programa Combustível do Futuro, além da uniformização tributária entre os estados. Contudo, a principal barreira permanece sendo a concorrência com a gasolina estatal. A incerteza sobre a manutenção de políticas de apoio e a falta de clareza sobre o futuro da política de preços da Petrobras criam um ambiente de instabilidade. O questionamento que paira é se o consumo de etanol seria significativamente maior caso a gasolina estatal refletisse os preços internacionais. A resposta a essa pergunta definirá o verdadeiro potencial de crescimento do biocombustível no país.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times