Uma nova fronteira energética emerge dos campos brasileiros, batizada de "pré-sal caipira". Trata-se do biometano, um combustível limpo derivado dos resíduos da produção de açúcar e etanol, como a vinhaça e a torta de filtro. Essa inovação não apenas oferece uma rota de diversificação de negócios para as usinas, mas também representa um potencial significativo para o agronegócio nacional, com aplicações que vão desde o transporte até a indústria.
O processo para obter o biometano inicia-se com a digestão anaeróbia da matéria orgânica, que gera biogás. Posteriormente, esse biogás é purificado para se tornar biometano, um substituto viável para o gás natural. Segundo a Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), o Brasil possui um potencial diário de produção de 120 milhões de metros cúbicos de biometano, utilizando diversas fontes de matéria-prima. Atualmente, já existem 21 plantas em operação e outras 47 em processo de autorização junto à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), indicando um mercado em clara expansão.
Potencial e Desafios da Nova Energia
A presidente da ABiogás, Josiani Napolitano, ressalta que a cadeia do biometano engloba diversos setores, desde o campo e a gestão de resíduos até a indústria, energia e transporte. A ambição vai além de simplesmente fornecer matéria-prima; busca-se atrair plantas industriais para o Brasil, desenvolver infraestrutura local, gerar empregos e produzir combustíveis de maior valor agregado para consumo interno e exportação. Essa expansão, no entanto, esbarra em desafios de coordenação entre os diferentes atores e na necessidade de uma infraestrutura robusta, que inclua portos, aeroportos e armadores, especialmente para atender mercados como navegação e aviação.
Aplicações e Mercado em Expansão
O biometano já demonstra competitividade em setores como o transporte pesado e a mobilidade urbana, onde pode substituir o diesel. A indústria também se apresenta como um mercado consumidor, com empresas que buscam ativamente fontes fósseis. Paralelamente, o biogás, sem a necessidade de purificação para virar biometano, pode ser utilizado diretamente na geração de eletricidade. A entrada em mercados mais complexos, como aviação e navegação, depende do desenvolvimento de rotas de produção eficientes e da conexão entre fornecedores, infraestrutura e consumidores, exigindo a consolidação de matéria-prima, produção, infraestrutura, compradores e contratos.
A Questão da Remuneração e Incentivos
Um dos pontos cruciais para a expansão do biometano é definir quem pagará pela redução de emissões. Embora o combustível apresente vantagens econômicas em diversas aplicações, a competitividade nem sempre supera a alternativa fóssil. A Lei do Combustível do Futuro, com metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, oferece um estímulo, permitindo a aquisição de biometano ou de certificados de origem. Esse mecanismo remunera o atributo ambiental do combustível, mas a escalabilidade da oferta depende de uma perspectiva econômica clara e de contratos de compra que garantam previsibilidade aos projetos. A expansão da demanda precisa caminhar em sintonia com a capacidade de produção, e a comprovação dos benefícios ambientais, desde a origem da matéria-prima até o uso final, é fundamental.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





