Em um universo onde a especialização muitas vezes dita o sucesso, a trajetória de Artur Katchborian e Mario Biselli no campo da arquitetura brasileira soa quase como uma ode à diversidade. Ao longo de quatro décadas de parceria, a dupla não apenas colecionou vitórias expressivas em concursos — a ponto de vencerem duas vezes a disputa pelo aeroporto de Florianópolis —, mas também se consolidou como uma referência de generalismo, transitando com maestria entre projetos de escalas e programas radicalmente distintos. Essa versatilidade, longe de ser um obstáculo, tornou-se a marca registrada do escritório Biselli Katchborian, desafiando a noção de que a excelência reside na limitação de escopo.
A Arte de Vencer Concursos
A fama de Katchborian e Biselli em concursos é lendária. A lista de vitórias é extensa, um testemunho de sua capacidade de concepção e de sua persistência. A própria anedota de terem vencido duas vezes o concurso para o Aeroporto de Florianópolis — o primeiro projeto, de 2004, nunca saiu do papel devido a mudanças administrativas, forçando uma nova disputa anos depois — ilustra a resiliência e a adaptabilidade da dupla. O aeroporto, concluído em 2019, não apenas se tornou um marco, mas também foi reconhecido com prêmios de prestígio, como o da Bienal Pan-Americana de Arquitetura de Quito e o Prêmio Oscar Niemeyer para a Arquitetura Latino-Americana. Artur Katchborian, em tom de brincadeira e sabedoria, resume o segredo para o sucesso em concursos com uma frase que ecoa a filosofia do escritório: "O segredo para ganhar é participar sempre". Essa participação constante, aliada a um profundo entendimento das necessidades de cada projeto, parece ser a fórmula para uma carreira tão vitoriosa.
Generalismo como Filosofia
A parceria entre Mario Biselli e Artur Katchborian tem raízes nos bancos da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde os dois se conheceram, e já atravessa 40 anos. Nos primórdios, o escritório aceitava qualquer tipo de trabalho, desde escolas e casas até estações de trem e igrejas. Essa abertura inicial forjou o que eles hoje definem como um grande "generalismo". Mario Biselli defende essa abordagem com veemência: "Quando você faz sempre a mesma coisa, a arquitetura vira commodity." Essa filosofia se traduz em um portfólio diversificado, que abrange desde residências de alto padrão até equipamentos públicos essenciais, como conjuntos habitacionais de interesse social, centros culturais e aeroportos. A exposição retrospectiva "Biselli Katchborian – 40 anos de trajetória", realizada na Biblioteca do Centro Universitário Senac, em Santo Amaro, não apenas celebra essa jornada, mas também se propõe a destrinchar processos e inspirar novas gerações de arquitetos, reforçando a importância da amplitude de visão.
Habitação Social e o Olhar Humanizado
Um dos pilares do trabalho de Biselli Katchborian reside no compromisso com a habitação social e a qualidade dos espaços públicos. Em São Paulo, a dupla liderou dois importantes empreendimentos de habitação social via Parcerias Público-Privadas (PPPs): o Complexo Júlio Prestes e a Usina do Asfalto.
O Conjunto Habitacional Heliópolis, concluído em 2023 com a participação direta dos moradores e assistentes sociais, é um exemplo notável. O projeto foi elogiado por romper com a monotonia dos blocos habitacionais padronizados, integrando-se à malha urbana e respeitando a escala humana e os fluxos comunitários — o que lhe rendeu o prêmio do IAB na categoria Edificações e Habitações de Interesse Social.
Essa preocupação com o bem-estar coletivo se estende a outros projetos, como a reforma do Vale do Anhangabaú, onde colaboraram com o escritório PJJ Malucelli Arquitetura, dando continuidade à visão de "cidades para pessoas" defendida pelo renomado arquiteto dinamarquês Jan Gehl. A dedicação a equipamentos culturais e educacionais, como as unidades do Sesc e os CEUs, também evidencia essa busca por espaços que promovam a convivência e o desenvolvimento social.
O Legado da Diversidade
A exposição "Biselli Katchborian – 40 anos de trajetória" não é apenas uma retrospectiva, mas um convite à reflexão sobre os rumos da arquitetura. Ao apresentar a diversidade de escalas, programas e abordagens que marcaram sua carreira, Artur Katchborian e Mario Biselli oferecem um contraponto inspirador à tendência de nicho. Suas obras, que vão desde residências icônicas como a Casa BRM em Curitiba até complexos urbanos de impacto social, demonstram que a arquitetura, em sua essência, deve servir à multiplicidade de necessidades humanas. A entrada gratuita na mostra permite que um público amplo possa dialogar com essa visão, questionando os limites da prática arquitetônica e celebrando a riqueza que a diversidade traz para o ambiente construído.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Metro Quadrado


