Em 2015, em meio a uma seca histórica na Califórnia, a cidade de Los Angeles implementou uma solução audaciosa: cobrir seus reservatórios — entre eles o Ivanhoe Reservoir — com 96 milhões de bolas de plástico pretas. A iniciativa, que custou US$ 34,5 milhões, prometia proteger a água da contaminação por bromatos, um subproduto potencialmente cancerígeno da exposição solar, e reduzir a evaporação em cerca de 1,1 bilhão de litros anualmente (projeção inicial do projeto). A estratégia, apelidada de "mar negro", visava bloquear 95% da luz solar, frear o crescimento de algas e diminuir a necessidade de cloro no tratamento da água, apresentando-se como uma alternativa muito mais barata às coberturas flutuantes, orçadas em US$ 300 milhões.

O Custo Hídrico Oculto

Mais de uma década após a instalação, uma investigação publicada em periódico do grupo Nature trouxe à tona uma faceta inesperada do projeto. Pesquisadores do MIT, do Imperial College de Londres e da Universidade de Twente calcularam a pegada hídrica da fabricação das bolas. Utilizando dados sobre o petróleo, gás natural e eletricidade empregados na produção do polietileno de alta densidade, eles estimaram que a fabricação das 96 milhões de bolas de plástico pode ter consumido entre 250 milhões e 2,9 bilhões de litros de água — quantidade comparável ou até superior à economia de água estimada pelo projeto para o período de seca analisado.

A Paradoxal Eficácia Ambiental

A análise dos pesquisadores sugere que o sistema de bolas de sombra poderia levar cerca de dois anos e meio para compensar sua pegada hídrica inicial, assumindo que o ritmo de economia de água se mantivesse constante. Contudo, a eficácia ambiental da solução torna-se ainda mais questionável fora dos períodos de seca intensa. Com a menor evaporação em épocas chuvosas, o tempo necessário para que o projeto se torne verdadeiramente benéfico em termos de balanço hídrico se alonga consideravelmente. Os pesquisadores não descartaram a utilidade das bolas, mas enfatizaram que sua real eficácia ambiental depende de uma contabilidade de recursos muito mais ampla e abrangente do que apenas a do reservatório coberto.

O Futuro do Plástico Flutuante

As bolas de plástico, fabricadas para durar pelo menos dez anos, começam a atingir o fim de sua vida útil prevista. O Departamento de Água e Energia de Los Angeles (LADWP) já previa que, com o tempo, as esferas poderiam perder integridade estrutural, abrindo-se nas juntas ou partindo-se. A questão que se impõe agora é o que fazer com milhões de peças de plástico que completaram seu ciclo inicial de serviço. O plano original previa a retirada, reciclagem e substituição periódica, mas ainda não há confirmação pública sobre o estado atual de deterioração das bolas, quantas foram substituídas ou se existe um plano concreto para lidar com o resíduo plástico em larga escala.

Lições para a Gestão Hídrica

O caso das bolas de plástico em Los Angeles serve como um estudo de caso sobre a complexidade da gestão de recursos hídricos em face das mudanças climáticas e da escassez. Embora a intenção de proteger as reservas de água e combater a evaporação seja louvável, a análise da pegada hídrica completa das soluções adotadas é crucial. A iniciativa californiana, que parecia uma resposta engenhosa e econômica, revela a importância de considerar os custos indiretos e os impactos ambientais em toda a cadeia produtiva antes de implementar projetos de larga escala. A busca por soluções sustentáveis exige uma visão holística, que vá além do benefício imediato aparente e considere os custos ocultos e o ciclo de vida completo das tecnologias empregadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka