A Sombra da Bolha da IA e o Risco de um Resgate Governamental

Os sinais de alerta começam a surgir no horizonte financeiro. Recentemente, a Oracle invocou "force majeure" para adiar o pagamento de dívidas de um centro de dados, um movimento que impactou negativamente o preço de suas ações. No mesmo mês, a OpenAI revisou drasticamente para baixo suas projeções de receita, enquanto a CoreWeave, uma empresa de data centers fortemente alavancada, viu seu valor de mercado despencar. Investidores já correm para adquirir credit-default swaps, um seguro contra o calote, evidenciando um declínio na confiança do mercado. Esses eventos, isolados ou em conjunto, apontam para um risco crescente: a possibilidade de um colapso no setor de inteligência artificial, alimentado por dívidas e interconexões, que poderia arrastar consigo a economia como um todo.

O temor central reside na natureza dos resgates governamentais. Desde a crise financeira de 2008, o Federal Reserve e o Tesouro dos EUA têm acumulado poderes para lidar com emergências financeiras, muitas vezes com pouca resistência do Congresso. Essas intervenções, embora justificadas como de interesse público e teoricamente sujeitas a supervisão, poderiam se tornar ferramentas de poder discricionário. Se um colapso financeiro ocorrer sob a administração de Donald Trump, a hipótese é de que o Congresso seria contornado. Um resgate sob seus termos poderia favorecer empresas e executivos alinhados ao presidente, independentemente de sua responsabilidade na crise.

O Poder de um Resgate Sem Limites e a Figura de Trump

A administração Trump já demonstrou uma inclinação a concentrar poder e a favorecer aliados. A escolha de quais agências seriam desmanteladas, quais funcionários seriam demitidos, qual pesquisa científica seria desfinanciada e quais indústrias seriam consideradas vitais para a segurança nacional já passou pelo crivo de um círculo íntimo de bilionários e trilhardários. A apropriação do aparato de resgate seria um passo lógico nessa direção. Em um cenário de instabilidade financeira, esses aliados poderiam pressionar o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, ou o próprio Trump, para declarar uma emergência e justificar um resgate. A composição atual da Suprema Corte, argumenta-se, dificilmente se oporia a tal declaração executiva.

A autoridade de resgate, nesse contexto, é descrita como uma arma carregada. Uma vez acionada, traria consequências já conhecidas desde 2008: déficits públicos e dívidas que consomem o PIB, empresas zumbis sustentadas por impostos, expansão da desigualdade de riqueza e uma transferência massiva de perdas dos perpetradores para o público. Na mão de Trump, essa dinâmica se agravaria, com a criação de uma "impressora de dinheiro" sob demanda, capaz de favorecer aliados e punir opositores, abrindo caminho para um "saque" em larga escala com apoio estatal.

Da Teoria à Prática: A Evolução do Resgate Governamental

Historicamente, a função de "emprestador de última instância", conforme definida por Walter Bagehot, visava socorrer empresas solventes em dificuldades temporárias e alheias ao seu controle. Essa prerrogativa foi formalizada no Federal Reserve Act em 1932, mas seu uso foi limitado até a crise de 2008. A escala sem precedentes dos mercados financeiros interconectados e complexos daquela época levou o Fed, sob Ben Bernanke, a utilizar o poder da Seção 13(3) para adquirir ativos financeiros e conceder empréstimos a instituições como a AIG, mesmo com garantias de valor questionável.

Na esteira da crise de 2008 e, posteriormente, da pandemia de Covid-19, o Federal Reserve expandiu agressivamente seu uso da Seção 13(3). Sob Jerome Powell, o programa se tornou ainda mais robusto, com a compra de dívidas corporativas e a concessão de financiamentos a juros baixos, muitas vezes sem exigências significativas para as empresas beneficiadas. O setor de combustíveis fósseis, por exemplo, teria se beneficiado de mais de US$ 1,47 bilhão através do Main Street Lending Program, após lobby para flexibilizar os termos. A falência do Silicon Valley Bank em 2023 solidificou a percepção de que o Fed poderia escolher vencedores e perdedores, beneficiando grandes bancos, empresas de tecnologia e seus executivos, enquanto famílias e empreendedores que agiram com responsabilidade ficavam à margem. Essa abordagem, segundo a análise, exacerbou a desigualdade de renda e riqueza.

Implicações para o Futuro e o Papel do Congresso

A trajetória recente dos resgates sugere um padrão preocupante para o futuro. Espera-se um volume massivo de dinheiro público, potencialmente superando o orçamento fiscal. O Federal Reserve e o Tesouro novamente definirão os setores beneficiados e os termos, mas sob a égide de uma administração que, segundo a tese, utiliza favores políticos para obter apoio financeiro. Empresas poderiam ser incentivadas a comprar termos favoráveis em troca de contribuições políticas, enquanto aquelas que não aderirem ao jogo seriam deixadas à própria sorte.

Contudo, esse cenário caótico não é inevitável. O Congresso, que criou os poderes de resgate, também pode limitá-los. A proposta é que, se não houver justificativa de benefício público para salvar uma empresa falida, ela deve ter permissão para quebrar. Quando resgates forem necessários, condições claras devem ser impostas para garantir o benefício público. Por exemplo, empresas de data centers poderiam ser obrigadas a limitar emissões ou investir em energias renováveis, enquanto criadoras de IA poderiam priorizar pesquisas médicas. Um gestor de resgates poderia ser estabelecido para supervisionar essas condições. A falta de intervenção do Congresso pode não apenas ampliar a desigualdade, mas também politizar o sistema econômico, com consequências geracionais.

Perguntas em Aberto e o Caminho a Seguir

A história recente dos resgates governamentais nos Estados Unidos, especialmente após crises financeiras e a pandemia, revela uma expansão significativa do poder discricionário das autoridades monetárias e fiscais. O cerne da questão reside em como esse poder será exercido no futuro, particularmente em um cenário de potencial colapso de setores de alta tecnologia como a inteligência artificial.

A autoridade de resgate, que se tornou um instrumento potente nas mãos do Federal Reserve e do Tesouro, levanta sérias preocupações sobre sua potencial politização. A possibilidade de que esses recursos sejam utilizados para beneficiar aliados políticos em detrimento do interesse público geral é um tema recorrente na análise. A intervenção do Congresso é vista como crucial para reequilibrar esse poder e garantir que quaisquer resgates futuros sirvam a objetivos claros de benefício público, em vez de se tornarem um mecanismo de favorecimento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas