O outono em Moscou, em 2024, não trouxe apenas as folhas douradas e o ar fresco que anunciam o fim do verão, mas também um burburinho particular no mundo da arte. Francesco Bonami, o curador italiano com um currículo que ostenta a curadoria da Bienal de Veneza em 2003, aceitou o convite para assumir a direção artística do GES-2 House of Culture. O espaço, um complexo cultural de 440.000 pés quadrados, situa-se do outro lado do rio Kremlin, um vizinho imponente em uma cidade que, desde fevereiro de 2022, se tornou um epicentro de tensões globais.

O GES-2 é mantido pela V-A-C Foundation, fundada pelo bilionário colecionador de arte russo-israelense Leonid Mikhelson. Proprietário de um dos maiores fornecedores de gás natural da Rússia, Mikhelson foi um dos primeiros a ser sancionado pelo Reino Unido após o início da invasão da Ucrânia. Sua presença na lista de colecionadores influentes da ARTnews entre 2013 e 2021 contrasta com o isolamento imposto pelas sanções internacionais. A nomeação de Bonami, portanto, não é apenas uma decisão curatorial, mas um ato que inevitavelmente se insere no complexo tabuleiro geopolítico, forçando um reencontro entre o Ocidente e a cena artística russa.

A controvérsia em torno do GES-2 não é nova. Mesmo antes do conflito em larga escala, o centro cultural enfrentou turbulências. Teresa Iarocci Mavica, cofundadora do museu, renunciou no final de 2021, em circunstâncias que geraram especulações sobre insatisfação pessoal de Mikhelson com uma escultura de Urs Fischer exposta externamente, ou sobre a necessidade de atenção maior ao espaço veneziano da V-A-C antes da Bienal de 2022, que incluiu uma visita de Vladimir Putin ao complexo. Pouco depois da invasão, o artista Ragnar Kjartansson cancelou apresentações de uma nova obra no GES-2, declarando que não seria possível continuar em meio ao "horror que começa". Mavica foi substituída por Alisa Prudnikova, fundadora da Bienal Industrial de Arte Contemporânea dos Urais, que agora cede lugar a Bonami, embora continue a atuar em trabalhos curatoriais no museu.

Bonami, um nome internacionalmente reconhecido, com passagens por instituições como a Fondazione Sandretto Re Rebaudengo e o Museum of Contemporary Art Chicago, além de edições da Manifesta e da Whitney Biennial, já colaborou com a V-A-C Foundation. Sua visão sobre o engajamento no cenário artístico russo, mesmo em tempos de sanções, é explícita. Em declarações à ARTnews em 2024, ele desdenhou do conceito de ética curatorial, chamando-o de "besteira" e comparando-o a um "crime branco que mata a alma das pessoas". Para Bonami, as sanções são econômicas, não culturais, e ele apontou colegas que colaboram com figuras "eticamente questionáveis" como prova de que a arte, em sua visão, transcende tais barreiras.

A sua declaração de que "o papel de Diretor Artístico é catalisar a energia artística" e que o objetivo comum é "buscar os melhores projetos para o GES-2" sugere um foco na autonomia da produção artística. No entanto, essa postura ignora o contexto em que a arte russa se encontra: sob o peso de um conflito e de um regime que o mundo ocidental busca isolar. A decisão de Bonami de assumir o posto, portanto, não pode ser vista apenas como um ato de paixão pela arte, mas como uma declaração sobre os limites da política no campo cultural e sobre a própria definição de responsabilidade artística em um mundo fragmentado. A arte, afinal, não existe em um vácuo, e as escolhas de seus guardiões ressoam muito além das paredes das galerias.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews