A Goya Tower, recém-inaugurada na província de Phang Nga, no sul da Tailândia, redefine as possibilidades do uso de materiais orgânicos na arquitetura contemporânea. Projetada pelo arquiteto Boonserm Premthada em colaboração com o Bangkok Project Studio, a estrutura de 543 metros quadrados funciona como um mirante público na entrada do Matalay Project, prestando homenagem à memória cultural e ecológica da região, onde a montanha Khao Chang é tradicionalmente associada à figura de um elefante.

O projeto se destaca pelo uso inovador de tijolos feitos manualmente a partir de esterco de elefante. Cada unidade, com 33 centímetros de diâmetro e cinco de espessura, é produzida sem processos de queima, dependendo exclusivamente da luz solar e do tempo para sua cura. A iniciativa questiona a viabilidade de transformar resíduos orgânicos em elementos construtivos robustos, capazes de sustentar uma economia criativa para comunidades que trabalham com o manejo desses animais.

A materialidade do resíduo como estrutura

A pesquisa de Premthada sobre o material começou anos antes da construção, em Ta Klang Village. O que inicialmente foi recebido com ceticismo, evoluiu de pequenos experimentos de laboratório — que chegaram a integrar coleções de museus como o MoMA — para uma aplicação arquitetônica em escala real. A Goya Tower utiliza esses tijolos orgânicos threaded em hastes de aço centrais, criando uma sequência de colunas cilíndricas que formam tanto a estrutura quanto a superfície da edificação.

A escolha do material não é apenas estética ou funcional, mas um exercício de integração entre o ambiente construído e o ciclo biológico local. Ao evitar fornos industriais e processos de alta energia, o arquiteto propõe uma arquitetura que se molda pelo sol, pelo toque manual e pela própria paisagem, desafiando a dependência de materiais de construção convencionais que possuem alta pegada de carbono.

Mecanismos de economia circular e escala

A viabilidade da Goya Tower reside na simplicidade do seu processo produtivo. A produção dos tijolos depende da repetição e da mão de obra artesanal, permitindo que a comunidade local participe ativamente do ciclo de valor do projeto. Ao transformar o que seria descartado em um componente arquitetônico durável, Premthada estabelece um modelo de arquitetura que valoriza o conhecimento tradicional em vez de substituí-lo por tecnologias complexas.

Durante a construção, a disposição dos tijolos em diferentes cores, obtidas de forma natural, cria um padrão visual que dialoga com a luz e a sombra. À noite, a torre funciona como uma estrutura de lanterna, onde a luz filtra através das colunas, destacando a textura orgânica dos tijolos e integrando a edificação ao ritmo lento e contemplativo da paisagem ao redor.

Implicações para o design sustentável

O impacto desta obra vai além do turismo e da arquitetura, sugerindo novas direções para a sustentabilidade global. Ao provar que materiais não convencionais podem compor espaços públicos de grande escala, a Goya Tower oferece um precedente para arquitetos que buscam alternativas ao concreto e ao aço. O sucesso do projeto em Phang Nga levanta questões sobre a escalabilidade dessas técnicas em contextos urbanos e a possibilidade de integrar resíduos orgânicos em projetos de infraestrutura de forma mais ampla.

Para reguladores e construtores, o desafio permanece na padronização e na segurança estrutural de materiais orgânicos. A experiência de Premthada demonstra que a colaboração entre design e ciência de materiais pode contornar a resistência do mercado, desde que o processo de pesquisa seja rigoroso e o valor cultural do material seja preservado. O projeto também serve como um lembrete de que a inovação muitas vezes reside na reinterpretação do que consideramos lixo.

Perspectivas e incertezas futuras

O futuro da Goya Tower como referência arquitetônica dependerá da resiliência do material ao clima tropical úmido da Tailândia ao longo dos anos. A manutenção da estrutura e a aceitação pública de materiais de origem animal em espaços de grande circulação serão indicadores essenciais para a viabilidade de projetos similares no futuro próximo.

Observar como a comunidade local e os visitantes interagem com a torre fornecerá dados valiosos sobre a durabilidade e o conforto térmico proporcionado pelos tijolos de esterco. O projeto permanece como um convite para repensar o impacto da arquitetura sobre o meio ambiente e a relação entre o homem e a natureza no século XXI, sem respostas definitivas, mas com uma proposta material clara.

O projeto, concluído em 2026, consolida a trajetória de Boonserm Premthada na exploração de materiais orgânicos como ferramenta para a arquitetura pública. A Goya Tower não é apenas uma estrutura, mas um manifesto sobre o papel do arquiteto na valorização de recursos negligenciados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom