O som de uma guitarra distorcida vindo do CBGB em 1977. O flash da câmera de Jacob Riis capturando a miséria de uma família em 1890. O barulho das carroças em uma estrada de terra que ligava as fazendas holandesas ao sul de Mannahatta no século 17. Poucas ruas no mundo contêm tantas camadas de tempo, cultura e contradição quanto a Bowery, em Nova York. É essa complexidade que o New Museum, um inquilino relativamente recente da via, se propõe a explorar.

A instituição, que se mudou para a Bowery em 2007, apresentará em setembro a exposição “The Bowery: Devil’s Mile”. A mostra é uma ambiciosa viagem por quatro séculos de história, reunindo desde artefatos, como um carro de bombeiros de 1830, a obras de arte de Keith Haring e fotografias que definiram uma era. É uma tentativa de mapear não apenas um lugar, mas um personagem central na narrativa de Nova York.

Do esplendor à sarjeta

A história da Bowery é uma crônica de ascensão e queda em loop. O que começou como uma trilha do povo Lenape e depois se tornou a “Bowerij Road” — estrada da fazenda, em holandês — foi também o local do primeiro assentamento de negros livres em Manhattan, no século 17. Com o tempo, a rua floresceu como um centro de entretenimento, repleta de teatros, circos e tavernas, um destino para diversão, “por mais estrondosa ou refinada”, como descreve a fonte.

No entanto, o crescimento desordenado e as ondas de imigração do século 19 transformaram a prosperidade em decadência. A Bowery virou sinônimo de cortiços insalubres, crime e doença, a infame “Skid Row” da cidade. A degradação foi imortalizada nas lentes de fotógrafos como Riis, que expuseram a vida na outra metade de Nova York, mas a reputação da rua continuou a se deteriorar ao longo da Grande Depressão e da Lei Seca.

A vanguarda na decadência

Foi justamente na aspereza de sua paisagem que a Bowery encontrou sua redenção cultural. Em meados do século 20, o abandono e os aluguéis baixos atraíram uma vanguarda de artistas que buscavam um refúgio. Nomes como Mark Rothko e os escritores da Geração Beat encontraram ali um terreno fértil. A energia criativa culminou nos anos 1970, quando a rua se tornou o epicentro do punk e da new wave com a abertura do lendário clube CBGB.

O local lançou as carreiras de bandas como Ramones, Blondie e Talking Heads, cimentando a Bowery no imaginário global como um lugar onde a contracultura podia florescer em meio às ruínas do sonho americano. Essa ressurreição artística é uma parte crucial da narrativa que o New Museum busca contar, mostrando como a decadência pode, paradoxalmente, gerar inovação.

O próprio museu admite que a exposição é apenas uma “introdução” à riqueza de uma rua que é também um “estado de espírito”. Ao tentar encapsular essa energia entre suas paredes, a instituição não apenas celebra o passado, mas se insere na perene tensão da Bowery: o que se ganha e o que se perde quando a vanguarda é finalmente museificada?

Com reportagem de Brazil Valley

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