O mercado brasileiro de capitais enfrenta um período de ceticismo acentuado entre investidores estrangeiros, mas o cenário pode estar próximo de uma inflexão fundamental. Segundo relatório recente do Bradesco BBI, a percepção predominante entre gestores nos Estados Unidos e na Europa é de que os ativos locais estão subprecificados, embora a falta de catalisadores claros ainda impeça uma recuperação robusta dos preços.

O documento, intitulado "Mais escuro antes do amanhecer", argumenta que o sentimento negativo é alimentado pela incerteza fiscal e pelas dúvidas em relação ao cenário político de 2027. Contudo, a equipe de estratégia do banco sustenta que o pessimismo atual atingiu um patamar excessivo, criando um ambiente onde qualquer sinal de melhora pode desencadear uma reação positiva significativa nos ativos brasileiros.

A tese de valorização e o cenário fiscal

Para os estrategistas do BBI, o mercado está precificando um cenário de juros permanentemente elevados que não se sustenta diante dos fundamentos atuais. O banco projeta a taxa Selic em 13,5% ao final de 2026, amparando-se na estabilidade do real e nos preços do petróleo. A leitura é que, se o próximo governo adotar uma postura fiscal mais moderada, o prêmio de risco embutido nos títulos públicos poderá recuar, aliviando a curva de juros de longo prazo.

Historicamente, o Brasil tem demonstrado capacidade de surpreender quando o posicionamento dos investidores está excessivamente defensivo. A equipe do banco observa que muitos agentes reduziram suas posições compradas, aguardando maior clareza eleitoral. Esse comportamento gera uma oportunidade para investidores que buscam ativos resilientes, especialmente nos setores financeiro e imobiliário de baixa renda, que tendem a capturar a melhora econômica antes de outros segmentos.

O papel do cenário global e a rotação de capital

Um dos pontos centrais da análise é a possibilidade de uma rotação de investimentos global. O forte desempenho recente das gigantes de tecnologia nos mercados americano e asiático tem drenado liquidez de mercados emergentes, incluindo a América Latina. O BBI sugere que o Brasil atua como uma proteção natural contra eventuais correções nesse setor global de tecnologia, atraindo capital de volta para segmentos tradicionais e de valor.

Além disso, o banco contesta a ideia de que o fortalecimento do dólar seja uma fatalidade decorrente apenas da política monetária do Federal Reserve. A história recente indica que ciclos de alta de juros nos EUA não resultam necessariamente na apreciação contínua da moeda americana frente ao real, desde que os fundamentos domésticos apresentem sinais de estabilização.

Implicações para o investidor institucional

O BBI mantém o Brasil como sua principal aposta na América Latina, citando a combinação de valuations entre os mais baratos do mundo e a opcionalidade eleitoral. Para o investidor, a estratégia sugere foco em ações sensíveis à queda de juros e empresas ligadas ao mercado de capitais. A tensão reside na capacidade do país em entregar previsibilidade fiscal, o que permanece como o principal entrave para a entrada de novos fluxos de capital estrangeiro.

Para o ecossistema local, a permanência dessa visão otimista por parte de grandes instituições reforça a tese de que o mercado de ações brasileiro pode ser uma alternativa relevante, desde que o ambiente político ofereça o mínimo de clareza necessária para a tomada de decisão a longo prazo.

Perguntas sobre a trajetória de 2027

O que permanece incerto é o real impacto das eleições de 2026 sobre a política econômica que será implementada no ano seguinte. Embora o BBI aponte gatilhos técnicos, a questão política continua sendo a variável que dita o ritmo do prêmio de risco.

Investidores devem monitorar de perto as sinalizações de gasto público e a composição das propostas econômicas para o próximo ciclo de governo. A "escuridão" mencionada pelo banco pode ser prolongada caso as incertezas sobre a trajetória da dívida pública não sejam dissipadas, mantendo o mercado brasileiro em um estado de espera por catalisadores concretos.

O cenário desenhado pelo BBI é uma aposta na resiliência dos fundamentos brasileiros frente a um pessimismo que, segundo a instituição, ignora a assimetria favorável de preços atual. O tempo dirá se o amanhecer está próximo ou se o mercado ainda enfrentará um período prolongado de incertezas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney