A linha tênue que separa criptomoedas de ativos tokenizados tem sido um ponto de confusão frequente no mercado financeiro. No entanto, especialistas, como Courtney Guimarães, diretor da área de ativos digitais da Bradesco Asset Management, ressaltam que a distinção é fundamental, especialmente com o avanço da tokenização no mercado de capitais. Em um painel promovido pela S&P Global, Guimarães detalhou as diferenças essenciais, que residem não na tecnologia blockchain subjacente, mas na natureza intrínseca do que é negociado.

Para Guimarães, o Bitcoin (BTC) é classificado como um "ativo psicológico". Seu valor deriva da convicção coletiva e da percepção social de que é um ativo financeiro, sem um fluxo de caixa tradicional associado. "Vale US$ 80 mil por essa é a percepção social", afirmou o executivo, ilustrando como a atribuição de valor é baseada em crenças e na psicologia do mercado. Em contraste, a tokenização representa uma evolução tecnológica para o registro e a negociação de bens e instrumentos financeiros no ambiente digital.

O Ativo Psicológico vs. Representação Real

A lógica por trás dos ativos tokenizados é estritamente fundamentalista. Um token, nesse contexto, funciona como um recibo digital estruturado ou o próprio instrumento financeiro. Ele pode representar uma ampla gama de ativos reais, como títulos públicos, cotas de fundos de investimento, recebíveis ou até mesmo garantias em setores como o agrícola e imobiliário. "O investidor tradicional não quer comprar ‘um token’. Ele quer comprar o ativo real. No passado, a forma desse ativo era o papel e agora migra para redes digitais. Se chamamos de token ou não, não importa: o ativo é o mesmo", explicou Guimarães. Essa clareza é vital para a adoção por investidores mais conservadores.

Governança e o Papel do Regulador

Outro ponto crucial de diferenciação, segundo o diretor do Bradesco, é a governança e o papel das autoridades reguladoras. Enquanto o ecossistema das criptomoedas tradicionais é frequentemente marcado pela especulação e alta volatilidade, os tokens de ativos reais atraem a atenção dos reguladores por permitirem a incorporação de arcabouços jurídicos diretamente nos contratos inteligentes (smart contracts). Isso possibilita a execução automática de regras de compliance, o pagamento de dividendos e restrições de transferência diretamente pelo código, assegurando a conformidade com a legislação e minimizando brechas operacionais.

Diferentes Investidores, Diferentes Objetivos

A análise de Guimarães também evidencia a existência de dois públicos distintos no mercado. De um lado, estão os negociadores de criptoativos, que buscam ganhos de preço rápidos e operam em horários não convencionais, fora do horário comercial tradicional. Do outro, encontram-se os investidores de ativos tokenizados, cujo perfil é mais tradicional e focado em eficiência operacional, redução de custos de administração e liquidação. Para o executivo, a clareza sobre esses perfis é essencial, pois os produtos e seus respectivos investidores possuem naturezas distintas.

O Futuro da Tokenização no Mercado de Capitais

À medida que o mercado de tokenização avança, é esperado que características antes exclusivas das criptomoedas, como a integração de contratos inteligentes e a infraestrutura de negociação contínua 24/7 com liquidação em tempo real, comecem a permear os ativos tokenizados. Guimarães antecipa que este será um processo de acompanhamento interessante, mas que demandará tempo e evolução significativa da infraestrutura de mercado para se chegar a um mercado de capitais totalmente tokenizado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times