O Brasil atingiu, em 2025, um patamar inédito de inclusão digital. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que mais de 90% da população com 10 anos ou mais utilizou a internet, consolidando uma mudança estrutural no perfil de consumo e interação dos brasileiros. O resultado, que marca um divisor de águas na história recente do país, reflete o impacto acumulado de políticas de expansão de infraestrutura e a onipresença dos dispositivos móveis no cotidiano nacional.

Para o Ministério das Comunicações, o número valida a estratégia de investimentos públicos e parcerias com o setor privado, como o uso de leilões reversos para alcançar áreas de baixa rentabilidade comercial. A leitura que se impõe é que a conectividade deixou de ser um artigo de luxo para se tornar a espinha dorsal da cidadania, do trabalho e do empreendedorismo no Brasil contemporâneo.

A infraestrutura como base da transformação

A expansão da conectividade no país não ocorreu de forma isolada, sendo fruto de uma estratégia multissetorial que envolve o Novo PAC e a regulação da Anatel. O foco inicial esteve na capilaridade, garantindo que o sinal de rede alcançasse regiões historicamente negligenciadas. Programas como o Norte Conectado e o Wi-Fi Brasil funcionaram como catalisadores para levar a infraestrutura básica a zonas rurais e remotas, onde o custo de implementação tradicional impedia o avanço das operadoras.

Vale notar que a tecnologia 5G tem desempenhado um papel central nessa aceleração. Com cobertura em 1.521 municípios e alcançando cerca de 76% da população, a nova geração de rede não apenas aumenta a velocidade, mas altera a capacidade de processamento de dados em tempo real. Esse movimento estrutural permite que a digitalização não seja apenas um fenômeno urbano, mas uma ferramenta de eficiência produtiva para o agronegócio e a telemedicina.

Mecanismos de inclusão e incentivos

O sucesso dessa marca de 90% reside na combinação de incentivos regulatórios e na redução das barreiras de entrada para o usuário final. O uso do leilão reverso, por exemplo, demonstrou ser uma ferramenta eficaz para corrigir as falhas de mercado que naturalmente levariam o setor privado a concentrar investimentos apenas em áreas densamente povoadas. Ao tornar o custo de expansão menos proibitivo, o Estado induziu a ocupação de lacunas territoriais.

Contudo, a dinâmica de incentivos agora enfrenta um novo desafio: a transição da conectividade quantitativa para a qualitativa. Não basta que o cidadão tenha acesso à rede; é necessário que o ambiente digital permita o desenvolvimento de competências. A inclusão digital, portanto, começa a ser medida não pelo sinal no celular, mas pelo nível de proficiência em serviços públicos digitais e pela capacidade de transformar o acesso em renda.

Implicações para o ecossistema nacional

A universalização do acesso coloca o Brasil em uma posição singular perante o mercado global. Com uma base de consumidores quase total, as empresas de tecnologia e serviços financeiros encontram um terreno fértil para a escalabilidade de soluções digitais. O varejo online, por exemplo, deixa de ser uma conveniência para se tornar o principal canal de vendas para milhões de pequenos empreendedores que antes dependiam exclusivamente do comércio físico.

Para os reguladores, o desafio agora é garantir que essa massa de novos usuários esteja protegida contra fraudes e desinformação. A massificação traz consigo a responsabilidade de educar o usuário, um pilar que deve acompanhar o avanço da infraestrutura. O Brasil, ao conectar-se, também se expõe aos riscos inerentes à economia digital, exigindo uma governança que acompanhe a velocidade da adoção tecnológica.

O futuro da conectividade

O que permanece em aberto é a sustentabilidade econômica dessa infraestrutura em longo prazo. Se a expansão foi financiada por grandes projetos de investimento, a manutenção e a atualização tecnológica exigirão modelos de negócio que justifiquem a operação contínua em áreas de baixa densidade. A pergunta que se coloca é se o mercado será capaz de absorver esses custos sem depender permanentemente de subsídios estatais.

O horizonte para os próximos anos sugere uma migração do foco: da cobertura para a latência e a qualidade da experiência. O Brasil provou ser capaz de conectar sua população, mas a verdadeira transformação digital dependerá de quão bem esse acesso será utilizado para impulsionar a produtividade nacional e a inclusão social real, para além da simples presença online.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside