A frase histórica "Independência ou morte!" ecoa a importância de decidir o próprio destino. Em pleno século XXI, essa ideia se estende ao domínio digital, especialmente com o avanço exponencial da inteligência artificial (IA). A questão central é: quem definirá as regras de funcionamento dessa tecnologia que já interfere em nosso cotidiano, desde a forma como interagimos até como trabalhamos e realizamos transações financeiras? A soberania na IA transcende a mera criação de algoritmos; abrange a transformação dessa tecnologia em serviços, negócios e normas que impactam diretamente a vida de cada cidadão.
O ritmo acelerado da IA é notável. O ChatGPT, por exemplo, tornou-se público há menos de quatro anos, em novembro de 2022. Diante da próxima eleição presidencial brasileira, é pertinente questionar o que poderá mudar até lá e qual será a voz do país nesse debate. A conversa atual vai além de simples assistentes virtuais que respondem perguntas. Os agentes de IA, programas capazes de usar ferramentas para agir em nome dos usuários, já são uma realidade em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, há esforços governamentais e empresariais para garantir a interoperabilidade desses agentes entre diversos serviços.
Nesse contexto, surge a provocadora proposta de um "Pix para a IA", inspirada no sucesso do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. O Pix permite transferências entre diferentes bancos sem a necessidade de que todos utilizem o mesmo aplicativo, com o Banco Central organizando a infraestrutura e as regras comuns. Aplicado à IA, um modelo semelhante poderia permitir que bancos, empresas e órgãos públicos reconheçam os agentes de IA escolhidos por seus usuários. A ideia não é criar um assistente único controlado pelo governo, mas sim um framework que permita a coexistência e a interoperabilidade de múltiplos assistentes. Um "CPF" para agentes de IA poderia identificar quem eles são, enquanto uma "procuração digital" definiria seus poderes de ação e os limites de suas permissões.
A experiência brasileira como diferencial
A analogia com o Pix reside na capacidade de tornar esse reconhecimento de agentes válido entre diferentes serviços. Isso traria um novo paradigma para a automação de tarefas. No ambiente profissional, por exemplo, um agente poderia coletar notas fiscais, e após a revisão de um contador e a aprovação do cliente, enviar a declaração de impostos. Essa proposta visa formalizar e legitimar esse tipo de trabalho, sem que o programa precise se passar pelo usuário. O próximo governo brasileiro teria a oportunidade de reunir órgãos públicos e empresas para iniciar a implementação de serviços de grande utilidade pública baseados nesse conceito.
Mecanismos para a soberania digital
O poder público teria o papel de coordenar acordos para a aceitação desses agentes de IA, enquanto as empresas se dedicariam ao desenvolvimento dos produtos. A segurança e a definição de limites para a ação desses agentes seriam parte integrante desses acordos. Com essa base sólida, equipes brasileiras poderiam desenvolver e implementar seus próprios assistentes em diversos serviços, reduzindo significativamente o trabalho repetitivo e burocrático. Empresas internacionais também encontrariam no Brasil um ambiente propício para testar e comercializar seus produtos, aproveitando a infraestrutura e as regras estabelecidas.
Implicações para negócios e usuários
Para o pequeno empresário, a adoção de agentes de IA reconhecidos poderia significar uma drástica redução no tempo dedicado a tarefas administrativas e burocráticas. Para os desenvolvedores de software, abririam-se novas oportunidades de negócios e a possibilidade de alcançar um mercado mais amplo. A partir desse uso intensivo e da criação de soluções locais, o Brasil poderia desenvolver equipes e tecnologias inovadoras que atrairiam o interesse de outros países. A ambição seria posicionar o Brasil como referência global na discussão sobre o funcionamento e a regulação de agentes de IA, demonstrando como essa tecnologia pode ser aplicada de forma eficaz na vida real.
O tempo e o futuro da IA no Brasil
O fator tempo é crucial. O aprendizado necessário para construir um ecossistema de IA soberano não é adquirido instantaneamente, mas sim através da criação, do uso contínuo e da correção de serviços. Os próximos quatro anos podem representar um período fundamental para o Brasil acumular essa experiência valiosa, enquanto o modelo de uso de agentes de IA ainda está em fase de consolidação global. A escolha de um governo, embora importante, não dita o ritmo da evolução tecnológica. A grande questão que se impõe é: ao final do próximo mandato, qual será a influência e a voz do Brasil na definição das regras que orientarão o uso da inteligência artificial no mundo?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





